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O 7 de setembro e a revolução da pedra (crônica)

Por Marcos Almeida

Nos anos 1980, o que pouca gente comenta é que havia um grupo de adolescentes que adorava aventura e revolução, pelas bandas do Sul de Minas. Era o período final da ditatura militar, onde a pequena e pacata cidade, apesar de antiga e influente regionalmente no século XIX, reunia alguns provocadores que não toleravam a ordem unida que as escolas promoviam. O local, onde o grupo se reunia, para comer pão com mortadela acompanhado de guaraná caçula, era a famosa serra da Pedra do Coração. O líder levava o martelo – porém deixava a foice na sede da organização, no porão de sua casa – e um prego, visando furar a tampa da garrafinha de vidro pouco antes do consumo com aquele refrigerante levemente aquecido pelo calor da subida.

Revolucionários da Pedra

Enquanto o desfile era organizado em uma das extremidades da enorme praça, situada entre as duas majestosas igrejas, os rebeldes de calças curtas iniciavam o trajeto próximo ao morro do coqueirinho, que por várias vezes, se enturmavam com uns malucos (era o rótulo) que contemplavam rigorosamente o pôr do sol nas tardes de outono. O que se dizia, à boca miúda, que seriam jovens desajustados que gostavam ouvir Rita Lee, Raul Seixas, Caetano e Gil e, os mais caretas, Roberto e Erasmo Carlos. Possivelmente, embaixo daquela palmeira vizinha ao Itacor Hotel, tenha sido lançada a ideia do Porão da Fumaça, tão famoso bar daquela cidade, frequentado até por gente abastada e feliz.

Desfile em Caldas - Década 1980

Enquanto os moleques e molecas rumavam para a pedra, com direito a uma pequena parada para apreciar a vista diante de um cruzeiro, encravado para vigiar a todos e carregado por uma população fiel por volta de 1970, ouviam-se os primeiros toques das “caixas de guerra” e dos “surdos”. Isto amedrontava a turminha, que acelerava o passo.

Grupo precursor dos Revolucionários da Pedra

O desfile da independência do Brasil comemorava a libertação de Portugal. Porém, o momento vivido era de dependência de outro império. Havia boa simpatia por inúmeros munícipes, especialmente pela sua cultura invasora entre filmes de cowboys que matavam indígenas e músicas em um idioma dominante, sem dizer da sua moeda tão desejada. A ameaça do comunismo e a guerra fria traziam argumentos até para cristãos de sacristia. Enquanto isso, a fome nas periferias, mesmo na pacata povoação que abrigava pessoas empurradas para a margem, sem vez e sem voz. Nada que uma cesta básica, dias antes de uma certa eleição, pudesse resolver tamanho problema...

Pavilhão Nacional - Desfile Década 1980 - Caldas/MG

O relato mais recente é que poucos anos depois, parte daquele grupo que permaneceu na comunidade, partiu para o cume da Pedra Branca, reunindo uma quantidade maior de agitadores, que procuravam viver a fé e política, pois não teria como separá-las. As palestras aconteciam formando um grande círculo ao céu aberto, após uma longa caminhada. Tudo escondido daqueles que sempre ocultaram a realidade dos mais jovens, apresentando seus eventos com trajes eruditos e sem representatividade, em desfiles que espremiam e amontoavam os populares nas calçadas. Vários sons eram deixados de lado, melhor, proibidos: atabaques e berimbaus. Adestravam insistentemente um corneteiro que arrastava o restante da fileira para nos convencer que o melhor da vida estava por vir. O Pavilhão Nacional, que é um símbolo de soberania e identidade de um povo, ao lado das bandeiras do estado e do município, arregimentava o olhar dos que crucificavam todos os que pensavam diferente. Mas, como tudo era bonito, os acordes marciais e a pisada forte a cada repique "um-dois", quem me dera discordar de tudo isso!

Antes tarde do que nunca é importante frisar que, sobre tudo isso que recordamos, qualquer semelhança é mera coincidência...

***

Talvez, uma nova história dessa revolução que continua viva em muitos corações!

Reunião Secreta na Pedra Branca - 1985
Fé e Política

Marcos Almeida (blusa azul) 
Luciano Pontes (blusa preta)
Os outros, alguém sabe?



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