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Meu Pocinhos

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Por Marcos Almeida Antes que a manhã desabotoasse os primeiros raios de sol, o frio cortante do vale, com um rio que percorreu a serra, deixa o meu corpo inerte. Sonho com um antigo desbravamento, subindo o Morro do Galo para olhar pra todos os lados. Naquele lugar, sempre me encontrei, mas também busquei refúgio; me escondi de quem me olhava atravessado esperando que eu soltasse a voz.  Uma vez gritei lá do alto. Ninguém ouviu, exceto um homem simples que varria a rua bem pertinho do Balneário que respondeu: "opa!". Os poucos moradores pareciam estar com os seus afazeres para outras bandas, nos roçados ou mesmo na cidade. Eu gostaria de fazer uma coisa: dar um ponto no Rio Soberbo, naquele lugar que muita gente engoliu água ou até sumiu. A cachoeira do bacião. Tinha um poço que não dava pé nem pra gigante, que só vendo. Mas, preferi ficar observando do morro a igrejinha, o hotel grande e a estradinha que se despedia do povoado com cara de tristeza, porque sair dali era uma p...

Caldas, por um tempo...

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 Por Marcos Almeida Caldas, por um tempo, nasci. Fui batizado, dia seguinte, estando lá Padre Gervásio, meu pai, meus avós, minha tia. Mãe no resguardo, Dona Fia, a parteira, recomendou. A praça de pedras, de jardins, sem muita interferência desnecessária, poucos carros, inúmeros caminhantes, duas igrejas por ali, igrejinha lá no alto. O coreto, ora banda, ora livros, ornava com o Rosário.  Os casarios, sobrados de outrora, por um tempo completavam. Hoje, poucos resistem, ninguém se incomoda,  virou moda outra coisa. Caldas, por um tempo foi outra, hoje não sei, vivo distante. Perdi raízes, quiçá, recupero, olhando um retrato perdido, então achado, maculado. Então, agora vejo com os olhos do coração. Anos 1940? Anos 1960?

Por entre beliches, caronas, foiçadas e abacates - Parte IV

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  Parte IV LEIA ANTES AS OUTRAS PARTES DESSA HISTÓRIA PARTE I -  CLIQUE AQUI PARTE II -  CLIQUE AQUI PARTE III -  CLIQUE AQUI Qualquer um que tenha vivido um tempo naquela escola agrícola poderá estar comigo nesta recordação. Cada pedacinho gerou uma memória afetiva: os bancos do pátio, a caixa d’água, a estradinha de terra até o estábulo, o pomar e o cafezal. Mas, digo que havia um lugar que fazia a gente balançar, o corpo e a alma. Eram os abacateiros, especialmente quando a gente tinha um tempo para um descanso sob a imensa sombra. Após a preguiça, enquanto alguns catavam os frutos caídos com algumas bicadas de passarinho, outros subiam em seus galhos tentando colher os mais bonitos nas enormes copas das frondosas árvores. Era momento de muita risada, de contar causos e vantagens, de ralar as pernas nos galhos roliços e de não perder o jeito de criança. Sabíamos que a comida do refeitório, especialmente no jantar, não dava a sustança para uma galera em plena fas...

Por entre beliches, caronas, foiçadas e abacates - Parte III

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  Parte III LEIA ANTES AS OUTRAS PARTES DESSA HISTÓRIA PARTE I -  CLIQUE AQUI PARTE II -  CLIQUE AQUI Era compromisso dos futuros técnicos em agropecuária seguirem as regras da direção e da supervisão. Quando nos ausentávamos da escola nos fins de semana, precisávamos avisar se voltaríamos no domingo ou na segunda-feira pela manhã. Havia um monitor para conferir de acordo com o número do aluno. Não era permitido perder a primeira aula as 7h da manhã, fosse em sala ou prática (no estábulo, na pocilga, na horta, etc). Também não era permitido sair de férias antecipadamente. Essa bobeira eu dei quando estava no último ano, porque estava tranquilo com as notas e louco para “cumprir” alguns compromissos juvenis em minha terrinha. Mas quando voltei para acertar as questões para a formatura, fui surpreendido por um professor com uma foice e um pasto inteirinho para roçar, por não me sujeitar ao regulamento. Foram três dias de serviço pesado do pobre “gabiru”. Meu pai ficou sab...

Por entre beliches, caronas, foiçadas e abacates - Parte II

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Por Marcos Almeida Parte II Leia a PARTE I desta história, link abaixo: PARTE I - CLIQUE AQUI Confesso que a primeira semana, em um colégio considerado como semi-internato, foi difícil pra mim. Chorei. Dava um jeito de me esconder, nos meus iniciados quatorze anos. E também engoli o choro. Nem sei se isso fez bem ou mal para o meu psicológico. Mas eu ouvia a voz da minha mãe dizer que deveria aguentar firme. Tinha pavor de envergonhá-la diante de algumas amigas que incitavam a sua imaginação, que eu não aguentaria o tranco e a escola era para quem estivesse acostumado a trabalhar na roça. E, talvez, por força das línguas, realmente aconteceu o esperado trabalho duro. Logo de cara pegamos um enorme terreno para capinar. Após as férias, o mato havia tomado conta de onde seria a horta. E lá fomos nós. Uma turma de trinta, pois as outras turmas estavam em outras áreas. Recebi a minha enxada, agarrei no guatambu e saí mais cavoucando do que capinando. Eu, saí com a mão sangrando, de tão f...

Por entre beliches, caronas, foiçadas e abacates - Parte I

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Por Marcos Almeida Parte I Cutucar o passado pode ser algo provocativo. Pensar assim, me faz ter cuidado com os meus rabiscos e luto para não condenar os olhares apenas curiosos – no bom sentido do termo – levando em consideração que as experiências que compartilho são pessoais, pelo menos aqui neste caso, sendo possível provocar sentimentos adversos. Mas, talvez, seja apenas uma preocupação ou dúvida desnecessária. Sempre é muito difícil tratar de alguma vivência tentando convergir para o ponto de vista de alguém que não passou pela mesma situação, e que necessita, por vezes, aprofundar no texto para captar o significado da mensagem. Acredito que há uma grande responsabilidade: o emissor deve reconhecer esse desafio. E certamente, o receptor necessita atentar e buscar nas entrelinhas os inúmeros códigos e senhas. Sim, exige esforço. Estar aberto, portanto, a algo que não havia explorado ou embrenhado, pode fazer a diferença para uma conexão desejada. Escrever parece ser mais fácil. ...

O 24 de dezembro e a nova revolução da Pedra!

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Por Marcos Almeida As ruas de paralelepípedo resistiram ao tempo e sustentaram a evolução da revolução da Pedra, especialmente no Natal de 2017, na minha terra natal. Ninguém poderia imaginar uma quantidade expressiva de revolucionários, entre eles, alguns desafetos dos desfiles setembrinos obrigatórios, mas que naquele momento marcharam pedindo respeito à legislação vigente, a garantia de nossa Pedra Branca gigante. Os que buscavam impor retrocesso ao artigo que a sustentava livre do colapso, sentiram o peso da união. A palavra de ordem era a preservação da serra que abriga o maior patrimônio natural de uma pacata cidade que, tempos atrás, também pensou ter urânio infindável. Sobre este tema paralelo, o que vimos após total exploração foram os seus rejeitos misteriosos e escondidos, adicionados por outros tantos “presenteados” também por gente de fora, uma tal torta difícil de engolir. Parecendo vocação minerária, surgiram por fim, pedreiras – razão desse relato subversivo – com sua...

Retratos de um certo padre caldense

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Por Marcos Almeida   Fiquei sabendo que havia chegado em Caldas, na década de 1970, não me recordo exatamente o ano, um padre conterrâneo, de uma família de amigos de infância. Eu ouvia dizer: - O tio padre agora vai ser padre aqui... Imagem cedida por Tabir Dal Poggetto Eu ficava sem entender essa mistura de tio e padre. Na minha cabeça infantil, imaginava que se um sacerdote não poderia casar, impossível ter sobrinhos. Agora dou risada desses meus pensamentos pouco analíticos da época. Mas o que mais importava pra mim naqueles tempos era jogar bola, brincar de pique da lata, trocar figurinhas e nadar nos rios de Pocinhos. Quando eu passava próximo à uma igreja, previamente orientado pela minha mãe, me benzia, fazendo o sinal da cruz. Era o mínimo que se poderia exigir de um moleque, tendo em vista que não gostava de ir para as rezas e missas. Via o padre quando não tinha jeito. Passei aperto na minha primeira comunhão, pois seria necessário confessar os meus pequenos pecado...

A recusa em ouvir as respostas

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Por Marcos Almeida Tenho algo em mente e acredito que é importante considerar: qualquer começo pode ser belo e eloquente, mas estejamos preparados para o final. Longe de mim querer desmistificar crenças, especialmente quanto a eternidade e não é essa a minha questão, por ora. No entanto, vejo pouco preparo, categoricamente das pessoas do sexo masculino, para o que se convencionou atualmente a nominar como mudança de ciclo. Um relacionamento, por exemplo, tem início, meio e fim. Então, de que adianta entrar de cabeça sem ter a mente e o coração equilibrados para momentos de separações, voluntárias ou não, para os finais? Renata, Tio José Nilton, Marcos, Ivete (mãe), José Cândido e Maria Aparecida (meus avós). Posso até estar caindo em alguma arapuca de palavras, armada por mim mesmo, mas gosto de me arriscar. Pela minha vivência familiar, com tantos erros e desencontros, aprendi com meu pai a importância de resguardar minha mãe e minha irmã. Mas não somente. Ele, apesar de seu jeito b...