Crônicas
Boteco Ponto Final (jan/2026)
Por Marcos Almeida
A praça fora testemunha de muitos acontecimentos que posteriormente eram assuntados pela pequena população. Cada notícia corria como um rastilho de pólvora, na ligeireza das línguas afinadas até aos ouvidos dedicados e delicados com a urgência em propagar a raridade acontecida ou pintada.
Havia uma esquina da praça que dava direto para o cemitério. Seguia por uma rua com um declive considerável que, em dias de chuva, ninguém conseguia subir ou descer sem se escorregar. Tempos sem o asfalto que hoje facilita o
equilíbrio, mas que prejudica a superação do tédio por falta de assunto. Para chegar ao pequeno centro do
vilarejo, era necessário vencer a temida rua de terra, poeira ou barro, a
depender dos ares, no lombo do cavalo ou sobre uma junta de bois que arrastavam
um carro de rodas grandes de madeira maciça.
| Mistério |
Bem próximo ao campo-santo, o “Boteco Ponto Final”, de dois amigos de infância, Tom e Amado. Boteco era mais fácil de pronunciar naquelas bandas, mas na verdade era uma mercearia. Havia de tudo por lá: fumo de rolo, secos e molhados, uns petiscos de pança de porco e uma cachaça trazida da roça, além das coisas que vinham da capital. Se tivesse o nome de “mercearia Tom Amado” poderia depreciar os produtos ali oferecidos para a freguesia. Era o medo do duplo sentido.
No cair da tarde, alguns que chegavam do serviço das
fazendas da região, antes mesmo de se ouvir a reza da Ave Maria no rádio
daquele boteco, iam adentrando e pedindo uma pinga com um chouriço picado,
preparado naquele mesmo dia pelo Amado. Era uma venda que era frequentada,
normalmente por gente simples e que vivia da peleja do “ganhar de dia para
perder de noite”. Tom amava ter o boteco movimentado e dizia sempre “bem-vindos à nossa casa!”
Um certo dia, com chuva intensa caindo sobre os justos e
trapaceiros, estacionou no início da rua uma picape Chevrolet 3100 repleta de
badulaques na carroceria. Estava dirigindo um grande fazendeiro e dono daquela belezura em
azul em branco, o Coronel Ercílio, homem rico com terras no bairro das Antas e
também no Córrego das Foices. Tendo medo de enfrentar a subida do morro
enlameado e virar menção entre os olhares atentos, preferiu esperar ao menos o
movimento amainar. Correu ligeiro pra dentro do estabelecimento do Tom e Amado,
cumprimentou a todos empurrando com o indicador o seu chapéu, pediu uma caninha
pra limpar a goela, sentou-se próximo a uma das portas para poder observar o
clima. Começava a anoitecer. Pediu outros tragos e disparou a tagarelar,
deixando todo mundo boquiaberto, pois sua fama era de cidadão de bem, mas de fala curta.
Conversa vai e vem, aparece para se esconder do aguaceiro que
não dava trégua, mas parecendo afinar, o maior contador de papo da cidade, o Aparício.
Ele levou um susto ao dar de cara com o coronel. Passando as mãos pelos cabelos
com intuito de eliminar um pouco da água que o encharcava, não perdeu tempo pra provocar o ricaço de patente militar:
- O sinhô Coroné aqui, com “os pobre”? Interessante! Num é o
sinhô que tem duas belas filhas, duas fazendas por essas bandas?
O Coronel, com meia dúzia de doses nas ideias - os fregueses
nem poderiam dizer que ele perdeu a cabeça diante de tamanha afronta - sacou a sua pistola
Howdah de cano duplo e ameaçou o
quase moribundo Aparício no Ponto Final:
- Tá querendo enchê o saco, Aparício! Eu te conheço desde os
tempos em que você trabalhou na minha fazenda das Antas. Um enrolador dos
trezentos. Ia trabalhar e só contava suas mentiras e fazia todo mundo atrasar o serviço. Tô com você por aqui! (passando a mão pela tampa da testa).
Alguns, observando a situação daquela cena, enfrentaram o
breu, o mau tempo e o lamaçal, pulando fora. Outros, buscaram abrigo atrás do
balcão. Os mais curiosos arriscaram a própria pele para ver a sequência dos
acontecimentos dentro do boteco cujo nome poderia prenunciar uma tragédia,
quando o coronel concluiu a sua indignação:
- Eu tenho duas fazendas, sim! E você, tem alguma coisa
nessa vida?
Aparício não demonstrou medo algum diante daqueles canos apontados
para os seus olhos e, sem faiscar, requisitou ao Tom:
- Fais favô, Tâo! Pega a minha “Três Fazendas” di costumi e
imbruia pra viagi...
Parece que tudo havia congelado. Todos ficaram imóveis, menos o Tom que esticou o braço para pegar a encomenda. O Coronel ficou aturdido por perceber que uma simples
garrafa de aguardente poderia ter uma fazenda a mais que ele! E Aparício
tornara-se proprietário daquela caninha saindo ileso escapando do seu ponto
final.
***
O mexerico assombrado (dez/2025)
Por Marcos Almeida
Na véspera da festa do padroeiro de um lugarzinho esquecido atrás da serra da Mantiqueira, na venda do Tibúrcio que ficava em frente à igrejinha construída antes que meu avô planejasse nascer, dois fregueses e o proprietário assuntavam sobre o cotidiano. Ali, pouca coisa acontecia. Mas quando acontecia, como diz o mineiro, rendia prosa ou a famosa conversa fiada.
O freguês mais alto e corpulento começou dizendo ter visto
ontem uma assombração andando pela rua perto da casa do prefeito, bem tarde, lá
pelas nove horas da noite. Usava uma roupa clara cobrindo todo o corpo. O povo
daquele lugar, que caminhava sob a luz da lua, tinha costume de ver coisas
estranhas, normalmente quando a penumbra apresentava os seus mistérios.
| A sombra em ação! |
O senhor da venda emendava dizendo que nessas horas “tava fazendo meia noite e contando carneirinhos”. Todos riram.
O freguês magro, parecendo conhecer a história, perguntou se
deu pra “oiá a cara” da coisa. Prontamente, o outro disse que só viu “ino” e
acabou dormindo na janela quando “tava vortano”.
“Népussivi, home! Qué
mata a gente de nirvusia?”, esbravejou o magricelo. “Quando fico de butuca nas calada da noiti eu guento a mão inté o bicho
vortá”, complementou.
O outro não deixou pra depois: “Nu escuro dá pra ver quasi nada...”
O vendeiro, mais interessado em empurrar goela abaixo uns
“trem di comê e bebê” nos dois “Fi di Deus”, esparramou no balcão dois copos,
uma garrafa de cachaça e uma porção de frango a passarinho, dizendo:
“A muié preparou
agurinha. Pro ceis, fica tudo deis mir réis. Barato, né memo?”
A mulher do botequeiro vindo da cozinha foi logo disparando
com a língua: “Essa pinga num é forte
presses dois contadô de causo, não? Ocê sabe se eles gosta da coisa?”
O homem robusto retrucou: “Opa dona, assim nóis vai taiá o sangue. Nois é macho até debaixo
d’água.”
“Uai, muié. Só gosta o
disgosta quem prova, né memo?”, disse o marido um tanto “vacaiado”.
Cada qual, em um gole só, entornava o copo e pedia mais. O
comerciante matuto sentiu que o movimento ia ser “dos bão”. E tentou mudar de
assunto enquanto mais gente ia se ajeitando nas mesas do estabelecimento,
pertinho de escurecer.
De repente, entra um menino na venda e fala alto: “Ô Tiburço! A mãe mandô entregá esse pano
branco que tava todo cagado de bosta de galilnha. Agora tá limpim.”
“Ixi, moleque.”
Disse o Tibúrcio todo avermelhado. “Eu
falei pra tua mãe que não ia precisar disso hoje, porque amanhã é dia santo.”
E complementou, olhando para o povo da venda: “Assombrei porque no galinheiro do prefeito tá cheio de frangote que ele
safanô di nóis!”
O freguês magricelo que afirmava ter visto a cara da assombração outras vezes, revelou: “Bem que eu achei estranho a cabeça do frango estar pra fora do pano quando eu vi a sombração vortanu antionti”...
***
A turquesa (dez/2025)
Por Marcos Almeida
Chiquinho é filho de um conhecido pedreiro da cidade. Na verdade, é o mais novo de um mestre de obras que sabe fazer de tudo, desde a marcação do gabarito de uma construção, passando pela armação e cobertura da edificação, de duas e quatro águas, até a finalização de uma empreita, com o assentamento de pisos, louças e pias. Ele costuma brincar que quando a tarefa dele acaba o proprietário fica acabado. Ele repetiu isso inúmeras vezes para a sua família, normalmente na hora do jantar, gerando um asco especialmente em Francisco.
O nome do caçula foi colocado para homenagear o santinho que a família tanto venera e pelo fato de viverem na bacia do rio com o mesmo nome, cujo nascedouro fica belas bandas da serra da Canastra nas Minas Gerais. Apesar de uma boa distância da Bahia, pelo menos se a aventura for a pé ou no lombo de um cavalo, o maior sonho é, além de encontrar alguma pedra preciosa, para enricar e não precisar trabalhar, conhecer a nascente do Velho Chico, onde poderia lhe mostrar novos horizontes. Mas todos sabiam ser um sonho alheado. Todos se sentiam prisioneiros naquele território pelas condições adversas de conjuntura.
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| Canastra e a Casca Danta |
Num dia de serviço, sob o sol forte, Chiquinho beirava o tutor, brincando próximo a um riachinho com um antigo soldador estragado. Seu tornozelo estava marcado por ter tentado varar uma cerca de arame farpado que não perdoou a imprudência e imperícia. A casa quase pronta na sua forma final, enchia os olhos da vizinhança, pela simplicidade, toda alva, portais de madeira pintados de amarelo e guilhotinas brancas. Apenas dois quartos, mas com sala, cozinha e uma copinha com uma mesa antiga ao centro. O banheiro ficou um brinco apesar de pequeno. Mas avistava-se uma enorme serra pela porta da cozinha. Seria a proteção de toda aquela comunidade do forte vento que, vez ou outra, trazia um pó amarelo levantado por uma mineradora. O menino, conversando com essa branda aragem, avistou uma pedrinha azul esverdeada de tamanha beleza. Pegou-a e ficou olhando. Pensou e lembrou que a professora disse que na região foram encontradas, anos atrás, pedras turquesas bem naquele bairro. Não se conteve e falou baixinho:
- Acho que fiquei rico!
Colocou aquela pedra no bolso e ficou quietinho. Caminhou rumo ao seu pai, mas pensava em não contar. Em casa, decidiria o que fazer.
O pedreiro precisava cortar alguns arames para finalizar um serviço. Como estava sem o servente, vendo o menino por perto, gritou:
- Chiquinho! Traz a torquês pra mim!
O moleque sentiu um arrepio na espinha, pensando como o pai poderia ver a pedra no seu bolso.
- Tem nada comigo não, pai! Não encontrei nada!
O pai nem prestou atenção na resposta do filho. E insistiu:
- Anda moleque. Tá na caixa de ferramenta. Pega lá a torquês que não tô conseguindo cortar com a mão esses arames.
Respirou e percebeu que o pai procurava algo diferente do que ele escondia. Por não saber do que se tratava, arrastou a enorme caixa de ferramentas, muito pesada, até onde seu pai estava. De repente, a pedra caiu do bolso do seu calção, bem em frente ao construtor que vendo o que era, gritou:
- Estamos ricos, Chiquinho!
Chiquinho só pensou, sem proclamar nenhuma palavra:
- Como disse o padre, não dá pra esconder as coisas do Pai!
***
Marcando território (Dez/2025)
Por Marcos Almeida
Como é “sofrido” acordar na madrugada, às vezes antes das
quatro horas da manhã, com o canto do sabiá laranjeira. O bichinho tem cantado,
literalmente, aquela bela sabiazinha que fica do outro lado do ribeirão. Sua insistência
pode até não convencer a fêmea amada, mas tira mais cedo do colchão qualquer
cristão. Se fosse de palha, virava pro canto para puxar mais uma palha. Só que
hoje em dia, temos um de molas ensacadas, que de vez em quando dá vontade de
estourar esses sacos nos ouvidos desse passarinho. Como respeito a natureza,
aguento firme e relevo. Afinal, quem mandou a gente invadir o espaço da
passarada? E o canto também é condição de marcação e recuperação do seu espaço,
não é mesmo?
O jeito é dar um jeito, aprumar o corpo, especialmente as
costas, esticar os cambitos e dar uma sapeada nos arredores. Abro a janela da
sala de uma só vez. Na verdade, é um vitrozão com vidros canelados, dos anos
1970, de duas folhas, que de vez em quando emperra e não desliza direito. Ai
preciso colocar força que acaba dando um tranco nas minhas escápulas e também
na cervical. A minha fisioterapeuta nem pode saber disso. Melhor contar só para
o personal da academia para, talvez,
pegar leve no meu treino. Certamente, vou deixar feliz aquele maromba que marca
três aparelhos de uma vez, com uma toalhinha felpuda, uma garrafa squeeze e sua pochete cheia de tralhas.
E nem dá pra discutir, porque consigo ver toda a musculatura do caboclo.
Divaguei. Mas, voltando para a cena do vitrô meio retrô, que me proporciona uma
visão cento e oitenta graus da rua, no início da manhã já enxergo cocô de
cachorro bem em frente à porta de casa. Não satisfeito, o animalzinho de uma
certa madame aproveita para liberar um litro de urina que escorre por toda a
calçada. Com o calor chegando, exala um fedor de ureia que parece ter sido
concentrada em vários dias. Marca registrada e sua tutora sai rindo e
provocando. Um sorriso marcante nesse território de ninguém.
Deixo a casa ventilada após jogar um balde de água naquela
bagunça. Depois, borrifo uma mistura de álcool e cânfora pra evitar a
reincidência dos excrementos dos animais. Acho que os bichinhos estão de
marcação comigo. Acabo relaxado após tudo isso, porque tenho certeza de que meu
café preto me deixará esperto. Comprei, no dia anterior, biscoitões de polvilho
na padaria e requentei o único que não se transformou em uma goma. Acrescentei
queijo canastra no seu oco. Esqueci de colocar uma forma por baixo e escorreu
todo o recheio em cima do suporte do forno, recendendo um cheiro de queimado
que espalhou além muros. Não teve jeito. Alguém bateu na porta e era a vizinha
de baixo, preocupada se eu havia esquecido o ferro de passar roupa ligado.
Expliquei rapidamente o que havia acontecido e ela, virando as costas, sem
perceber pisou na bosta do cachorro que não havia dissolvido com a água que
joguei. Saiu pisando duro, brava. Fiquei rindo por dentro, porque ela sempre
vem me encher o “pacová”. Tenha a santa paciência, parece delimitação cerrada.
| Bem-te-vi |
Resolvi aproveitar a manhã para uma exposição solar e torcer para que seja produzida a minha vitamina D (de dado, não é roubado) em valores suficientes para um bom diagnóstico. Minha médica disse que seria bom receber os raios solares por quinze minutos na barriga e nas coxas, pelo menos quatro vezes por semana. Tenho acatado a orientação. Desta vez resolvi ficar só de cueca. Acabei cochilando deitado no piso frio que eu pedi para o pedreiro de confiança refazer recentemente. Apesar da caída errada que ele deixou – em dia de chuva vira um “pandareco” – no geral ficou muito bom e bonito. O sabiá me acordou cedo. Mas, do cochilo, quem me acordou? O maior marcador de territórios que eu conheço: o bem-te-vi! Ele gritou, gritou e gritou, por três vezes, o “bem-te-vi”. Eu levantei num susto e percebi ser uma advertência, pois pela fresta do portão de madeira da garagem, a minha vizinha me observava, daquele jeito que eu estava, tonto de sono e com pouca roupa. O pior é que minha peça íntima tinha um rasgo bem embaixo, na costura. Fiquei vermelho do sol juntamente com a vergonha e acabei mijando pelas pernas abaixo, deixando a minha área toda molhada.
Como ter sossego quando todos continuam marcando território?
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A bola (Nov/2025)
Por Marcos Almeida
Quantas vezes corremos! Compromissos, superando atrasos, envolvendo sonhos e castigos. Levantamos cedo para aprender ou ensinar, corrigir ou acatar, envolver ou demover. Alçamos adiante, sem muito pensar. Dizem que a bola está em nossas mãos. Será?
O mundo é ameno com quem se esconde. Mas, absorve a energia
de quem se apresenta. Quem se alistou ou obrigado foi?
A esperança não se finda nem com a conquista nem com a
derrota. Permanece. O tempo de uma partida delimita uma disputa. A vida é finita,
pode ser. Talvez não. Quem pode afirmar uma coisa ou outra?
O crânio, semelhante ao globo, guarda mais que um cérebro,
incontáveis neurônios. Entendemos por mente. Ninguém mente para si, nem para fulano.
Só a mente, circular, com juízo e razão, traz à tona a emoção que alguns alegam
surgir do coração. Aqui, com nossos botões, cilíndricos, rotina do ver e raciocinar,
absorver ou descartar, em tudo há conexão.
Alguém corre da bola; outro corre com a bola; a maioria, em
sua direção, para entrar em uma dividida e, certamente, quase permanente
dividida. Fosse fácil ter tudo aos nossos pés, ficaríamos parados. Aquela
famosa ideia de estar deitado em uma rede na praia tomando água de coco, uma
bola que se torna totalmente oca para matar a sede momentânea, enlouquece os carimbados
como sãos. Por isso, ninguém fica ad aeternum
na inação, inda mais só. Melhor lutar por ela todos os dias, mesmo que não nos
dê bola.
| Alegria do movimento |
À noite, olhar para o teto com uma fubeca (bola de gude) na garganta. Alguns dizem ser um pequenino sapo engolido e entalado. Ou sapos. Digerido ou expelido proporcionaria um sono profundo. Mas sabendo do outro dia, com a bola na beirada do leito, novo eito, não tem despeito. Melhor encontrar um jeito de dominar essa pelota. Pensemos que esta é a alegria do movimento!
***
A propaganda no
mercadão (Nov/2025)
Por Marcos Almeida
Desde que me entendo por gente, ir ao mercado costumava ser
uma grande aventura pra mim. Olhar as bugigangas, as frutas frescas e secas, além
dos temperos variados, me ajudavam a aguçar todos os meus sentidos, proporcionando
o prazer da água na boca, característica de um guloso de pai e mãe. Os aromas
circulavam pelas entranhas dos boxes e vazavam pelas ruas laterais, principalmente
após a fritada do jiló com fígado e do pastel com recheios diversos. A cachaça
também recendia ao deitar o litro em um trago no copo. Mineiridade, penso, pode
ser um pouco disso, onde os sabores e os saberes se entrelaçam até dar um nó.
Só não entendo bem aquelas moças oferecendo “uns trem” pra
gente experimentar quando estamos procurando outra mercadoria. Elas oferecem
falando todas de uma vez e acabo ficando perdido. Aproximam-se com o queijo na
ponta da faca. Quando ganho coragem ou se a barriga ronca, não só belisco alguma
iguaria como aproveito para colocar alguns em um saquinho para comer depois. O
que for do merchandising eu não pago; o restante, claro que sim. Justo.
Mas disso nem posso reclamar. Quando resolveram dizer que
mercado é outra coisa, principalmente nesses jornais afamados da capital
paulista, acabou me confundindo. Alguém revelou uma vez que mercado seria uma
entidade (?). Logo pensei nos orixás e nos outros seres espirituais. Certamente,
esse negócio não pode ser visto como aquele que abriga as tendas e bancas com
uma variedade de iguarias palpáveis e deleitosas, na maioria das vezes.
| Um trem frito |
O pior: até a propaganda que tenta convencer a gente, não mais oferecendo algo para provar, empurrando, goela abaixo, a quem transita por entre o seu espaço sideral e virtual, “outros trem” que acabam sendo só pra engambelar os fregueses. E parece uma contaminação em massa quando alguém fala que um “trem é bão”. Experimentou? Se não, “raspa o zóio”. Mesmo assim, parece coisa de esperto – eles se intitulam experts, mesma coisa - que tenta convencer as pessoas que existe sim “chifre na cabeça de cavalo”. Quem viu esse bicho?
Aqueles mesmos propagandistas, circulando bem vestidos - coletinhos
azuis ou cinzas -, com seus carros perfeitos, e opiniões sorrateiras sobre quem
pensa diferente, induzindo até a opinião política, com apenas uma bala na
agulha dá o tiro certo naquele que estava desatento. Então, cai. A bala é a
lábia. Ofertou o que não consumiu; vendeu o que não comprou. E ainda diz que se
não levar, o outro – sabe aquele fulano? – leva.
Porém, como tudo na vida, quando o queijo está comido na
beirada é sinal de que o rato passou antes por ali. E se você procurar direitinho,
ele deixa a propaganda de lado com todos os seus promotores mercantis, e acaba
sendo encontrado em algum portão de aeroporto, com a sua pança cheia, aguardando
para deixar o que restou azedando e fedendo por todo o mercadão!
***
Ruídos adversos: a
fábula do “meu zuvido num é urinó”! (Out/2025)
Por Marcos Almeida
Já não bastasse aguardar tanto tempo pra ser atendido por um
doutor médico, achatando a minha bunda numa longarina que mais parece um
colchonete de courino, minha audição permanece incomodada, não mais com a TV
que ficava ligada pra ajudar o tempo passar, desta vez com alguns portadores de
smartphones que só encaram um check-up
se puderem assistir os seus vídeos. Não bastasse olhar, ter legenda e, ainda, com
o volume elevado, aquela mesma narração da IA sobre cenas que se esforçam para
serem engraçadas. Depois, uma melodia daquelas antigas, tipo "Tema de Lara" ou "Je Taime - Moi Non Plus",
seguidos, sem perder o fôlego, para uma música funk que entrou desavisada. O “smart-expectador” tenta pular para o próximo
(o tal next), mas acaba repetindo aquela batida funkeira.
Depois, ouço forçosamente as conversas das secretárias, sobre
pacientes impacientes e suas rotinas pessoais; ainda, o roncar de algumas
barrigas de acompanhantes pela proximidade da hora do almoço, juntamente com aquelas
risadinhas inoportunas de vídeos com suas piadas prontas. Pernas inquietas,
fazendo algumas cadeiras rangerem. O choro estridente da criança –
compreensível – com a mãe calmamente tentando amenizar a situação. Um homem que
não para de tossir, puxando, em seguida, o catarro para o seu âmago. Como se
diz lá na roça, “meu zuvido num é uniró”!
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| Menino do Mato |
Logo após o brado do próprio médico que, dessa forma, evita a repetição do meu nome por entre tantos ruídos, adentro para a consulta. Assento-me em uma cadeira confortável. Ele começa a me fazer inúmeros questionamentos logo após encontrar os meus dados no seu imenso notebook, imponente sobre um suporte, impedindo o olho no olho. Pior ainda, com o barulho da ventoinha. Com isso, a fala mansa do profissional, tem seu volume aumentado; minha resposta, acaba sendo curta, diante das questões fechadas. Sim; não; sempre; nunca. Foram essas as respostas, majoritariamente. E que termine essa tortura, pensei olhando para o chão.
De repente, ele chama, por três vezes, a secretária, que atendia
na recepção. Impossível ela ouvir nas duas primeiras invocações. Porém, na
terceira, foi escutada até no prédio vizinho, cujas janelas estão uma diante da
outra. Ela chega afoita, o médico a orienta, insiste comigo para me deitar na
cama hospitalar, que balança com meu peso, a fim de me examinar, após o desenrolar
desajeitado e ruidoso de um enorme papel toalha sobre o leito. Pronto, matutei.
Agora, vem o veredito, digo, o diagnóstico.
Auscultou meu “bronze” e tórax, gostou. Abri minha goela, abaixou
a minha língua com um palito de sorvete (novo) e quase golfei. Então, pedi para
verificar os meus ouvidos. Limpos. Insisti, pois estavam sensíveis. Nada certo.
Ele olhou novamente. Limpo. Saindo de perto de mim, jogou uma caneta sobre o piso
frio e eu me levantei preocupado e irritado. Ansioso, querendo vazar daquela
sala magicamente silenciosa com inúmeros barulhos.
- Misofonia! Disse o médico!
- Engano seu! Jamais odiei ou desprezei as mulheres...
(resposta de quem não prestou atenção).
- Você não entendeu o que eu disse? Mi–so–fo–nia! Tudo bem
que “miso” em grego significa “aversão”. “Fonia”, refere-se ao som. Compreende?
Seguiram explicações detalhadas, resultando em minha angústia
por não poder mais voltar pra minha roça, onde nem o mugido da vaca me incomodava.
***
Um saco cheio após o outro (Out/2025)
Por Marcos Almeida
Quem atravessa a famosa rua Assis em Poços de Caldas, sul
das Gerais, sabe bem que é uma tarefa de paciência. Parece que todos os carros
do mundo resolveram traficar por ali, nesta segunda-feira de uma semana após a
que outrora era do saco cheio. Qualquer um pode ter constatado que tudo isso
reverberou pela cidade inteira, por todos os burgos mais populosos desse
cantinho do estado comprimido com o vizinho paulista.
| Poços de Caldas/MG |
Mas, ops! Quem enfrenta essa leitura, pensando saber o final, percebeu que traficar não é a palavra adequada para representar o ato de transitar pelas avenidas? Um erro grotesco que deu medo até a nossa quinta geração. Mas, para quem viveu por nove dias seguidos de forma leve (alguns praieiros, outros montanheiros), sem pensar no amanhã, talvez esteja agora sendo traficante de insultos e ofensas nesse trânsito compreensivamente de zona azul.
O menu de abusos começa pelas motocicletas, num arregaço de
velocidade e estrondo, sem paciência para esperar o verde, porque um bom (no
sentido de mau) motoqueiro não amarela e nem fica vermelho de vergonha, mesmo
se entrar pela contramão, só pra chegar mais rápido ao destino. Eles não
escutam, porque performam de capacete imune ao xingo alheio, mantendo um olho
no velocímetro e outro no aplicativo.
Os motoristas de van, os de passeio com mães e pais velozes
e furiosos, menu degustação, também correm para a comida não esfriar, enquanto
o resto do mundo deveria ficar quieto em casa para a aula não começar sob
retardo. Em frente à escola, a dupla, não de alunos, mas de fila, que come uma faixa
de passagem dos outros atrasados que saíram quase uma hora adiantados. Uma
buzina estridente, um grito eloquente, retrovisores se chocam, estilhaçando
vidro e plástico, e meia dúzia responde em monossílabos ou em gestos; quem
olha, entende largamente.
- Absurdo, estou de saco cheio!
***
O dono da bola (out/2025)
Por Marcos Almeida
Cinco contra cinco, formação básica no campinho da várzea.
“Cinco vira, dez acaba”, como definido nas tábuas das antigas leis da molecada.
Time com camisa, outro sem. E o dono da bola, vai aparecer?
| O dono da bola |
- Pai, mãe, tô indo no campinho! Tchau!
- Onde oce vai menino? Já fez sua lição?
Assim acontecia em quase todas as casas. Em outra, pais
requintados compravam as melhores bolas de capotão para o filho de cabelo de fogo.
O time com camisa, tradicionalmente, induzia a outra equipe
escolher o lado pior do campo. Mas como só tinha um vestiário, não precisando usar
camisa não tinha direito de uso, e lá dentro combinava-se a estratégia dos
uniformizados pra vencer, de qualquer jeito, com safanão e pedrada se
necessário fosse. Os de fora sabiam e não poderiam fugir da disputa.
O dono da bola chega, mas não joga literalmente. Dizia não
fazer parte de nenhum dos times, mas cá entre nós, todos sabiam o seu lado. O
juiz era parceiro do dono da bola e apitava favorecendo a turma que parecia
fardada; os que não tinham blusa, inconformados com isso, revoltaram-se. Apito
inicial. Um dos descamisados arrepia e dá a primeira pancada de tanto que havia
apanhado em outras partidas. O dono da bola pisca para o capitão da equipe mais
forte e dá o sinal para revidar com força. Começa uma briga generalizada, na
faixa estreita.
O juiz lavou as mãos porque a torcida dos bem vestidos
ajudava a dar cacetada nos pobres coitados. As mães dos meninos pobres, aflitas,
ficavam do lado de fora do alambrado; os pais gritavam, ativaram pedras que
caíam antes de atingir alguém do labo bom do gramado. Ação inócua.
Um jogo de futebol dura noventa minutos se não houver
prorrogação. Mas havia transcorrido duas longas horas sem fim. Um time batia;
outro desfalecia. Os oponentes desnudados, perderam tudo, calções, meias e
calçados, todos machucados, famintos e desorientados. O seu lado do campo, todo
desgramado. Até que o juiz conversa com o dono da bola que jamais sujaria as
suas mãos, porque existiam torcedores fazendo o trabalho sujo. Pediu a sua bola
para dizer que seria a hora da paz, justamente no momento que o repórter do
bairro apareceu.
- Uma paz após a extirpação de uma equipe? Questionou.
- Mas foram eles que começaram. Disse o juiz.
- Vamos apertar as mãos e prometer que nunca mais ocorrerão
tais brigas! Concluiu o dono da bola, que se autoproclamou o herói de toda essa
história!
E o dono da bola saiu em sua glória procurando outro
campinho, sei lá por qual motivo...
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O espólio (out/2025)
Por Marcos Almeida
Os estudiosos do direito que nos digam, sobre essa palavrinha esquisita, momento único após o falecimento do “de cujus”, que antes unificava, agora torna-se memorável pela sua partilha. Quem herdará o quê?
| Astúcia e sabedoria |
Se tem patrimônio, a divisão; se não tem, a lamentação. Melhor ter ou não ter? Eis a prerrogativa interrogativa indireta.
Calma, não me culpem por trazer um tema aparentemente relacionado ao óbito de alguém querido. Provoco: quando se trata da drenagem de um “ator” amplamente conhecido, antes com sua imunidade compadecida, que aparentemente sai de cena, como se morto fosse antes mesmo de esfriar o corpo, como dizem as más línguas.
Se é que alguém me entende, a briga pela herança começa com o doente acamado, que ameaça fazer um testamento onde ele mesmo é o beneficiado. Por vezes, promete incluir um filho com a outra; ou um amigo leal e ocasional, por seu poder atual. Não quer finalizar seu tempo sem soltar um soluço fatal. Um marginal, ou seja, à margem do que pode determinar, sendo escrivão, parece que é o dito cujo cutucando a onça com a vara curta: fora da nação.
| Por entre as sombras Sob certo ponto de vista |
Outro filho fica enciumado; a meeira quer inventariar, enquanto outros sucessores parecem não se importar com o falso legado, evitando arriscar o que o nome do mentor arregimentou a fórceps. Ninguém pensa na urna de seis alças antes da data do luto, porque pode estar entrelaçada por entre bits e falsas impressões, sem o pretendido registro em cartório por entre duas vias carbonadas. Até o juízo final.
Repensando o espólio, jamais poderemos esquecer que além dos bens e direitos existem as dívidas que nenhuma oração poderá quitar. Basta o cálculo, crédito menos débito: sinal trocado pode ser a pior transmissão a se fazer, correndo ainda a taxa do estado e honorários, necessário rachar. Afinal, alguém precisa quitar.
| As colunas central e lateral Sob certo ponto de vista |
No frigir dos ovos, desde que em vários cestos, cada qual corre para salvá-los e que não vire omelete. O problema é que passado o tempo, mesmo se de chocolate, todos apodrecem. Seria melhor ter uma biblioteca para repartir os livros onde o conhecimento não se perde. Só as chamas poderão queimar pensamentos insanos de adoradores, mas jamais as palavras proferidas pela boca amarga e seca do desenganado.
Por isso, no auge da sucessão, a extirpação do processo é o último desejo. Se caducar, tudo acaba, é o que mais se deseja o testador. Mas e a Lei, se tornará omissa?
O que isso tudo quer dizer? Não sei, não sou doutor advogado!
Cálice, por ora, afastado! (Set/2025)
Por Marcos Almeida
Depois que a multidão se dispersou, as casas foram renovadas por novas consciências que há muito não se encontravam. A sandália perdida em um jardim. As roupas coloridas nos varais, aguardando o primeiro sol após aquele dilúvio na avenida. Uma enchente de vida e luz! Quem poderia esperar?
O vento fez a sua parte, mesmo antes do alvorecer. Assoprou tanto que muitos nem dormiram. Sofreram com pesadelos. Acordaram. Reescreveram. Arrependeram de tudo o que fizeram entre quatro paredes, por entre os bastidores, longe dos microfones e holofotes, mas com uma plateia de ouvidos atentos diante da cortina de seda.
Enroladas as bandeiras, rebaixados os púlpitos, o oceano colorido, mais para amarelo e vermelho, incluindo o branco e o preto, para ninguém jamais ressignificar o chão-que-nos-alimenta. E quem não foi, sentiu-se representado, jamais abandonado. Mesmo quem ainda não caminha unido, mas junto está: famoso mesmo barco. Ou seria no mesmo rio em diversos barcos?
Pode chorar, sorrir, abraçar, só não convém se enganar. Cada pedra em que se pisa é a conexão com o futuro. Mesmo posto do passado, do alienado, do pneu furado, bandeira equivocada, porém o palanque é outro. Respeito. Carinho. E se a música inspirou, o coração indigente ressurgiu com a esperança de um novo regimento liberto.
Entoou o multiculturalismo, a ideologia, a sinfonia, um Pai: cálice, por ora, afastado!
“Para não dizer que não falei das flores”, nos percebemos no início!
Anis tinha no carvalho! (Set/2025)
Por Marcos Almeida
Zé Chico vivia perambulando entre a praça e o mercado daquela pequena e pacata cidade. Dormia onde "dava na telha", desde que estivesse com o seu pinico e não perdia o sono por nada. Parecia sempre estar com pressa, apesar da sua satisfação em dizer que nada tinha pra fazer. O seu compromisso era com o ócio e a fantasia, apesar de ter trabalhado por muito tempo na explosão de pedras. Enganava-se, entretanto, quem o julgava alienado. Conversava com ricos, pobres e remediados. Lia o semanário de sete páginas todos os domingos. Tinha o dom de imitar o jeito de falar do vigário da paróquia e até o sotaque esquisito do médico estrangeiro do postinho. E sabia costurar todas as histórias que ouvia e que seriam munições para a sua narrativa cotidiana.
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| Boteco tradicional de Minas |
- Fala Sagu! Vê um café e dois pães com manteiga pra mim!
Sagu era o dono do boteco, que tinha penas um mictório "uni-sexy", que servia desde fumo de rolo até secos e molhados.- Vai pagar de que jeito, Zé Chico?
- Fiado, uai!
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| Trem bão |
Zé Chico ameaçou contar o que sabia da vida familiar do botequeiro, marido da beata mais famosa daquelas bandas e que frequentava o gabinete do executivo periodicamente.
Porém, chegou um jagunço de dois de altura por três de largura, que deu uma peitada no pobre coitado. Zé Chico caiu. Mas antes de estatelar no chão, bateu a cabeça no tonel de carvalho, onde licor de anis tinha.
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| Tonéis |
- Justiça!
Era o pedido dos que não aceitavam tamanha violência por um café pequeno e pão.
Porém, o dono de mais da metade da cidade que observava de perto, por acaso também senhor prefeito, disse:
- Anistia pro jagunço! Ele sempre me protegeu da justiça sem pavor!
Mas quem seria o jagunço? O padre, o médico ou o monstro?
De repente, Zé Chico acordou e disse:
- Anis tinha no carvalho!!!
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| Pinico = urinó |






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