Quantos anos?
Por Marcos Almeida
A infância passou como um foguete na minha vida. Contando o
meu tempo, saí do zero a doze em poucos segundos-luz, com a força rotacional de
inúmeros Newton-metros. Enquanto a meninice era plena, o reconhecimento era de
todos, presentes recebidos, sonhos incentivados e até pré-estabelecidos pela
família e agregados, apaixonados por conselhos impossíveis de cumprir. Tinha o
privilégio de andar pelado pela casa até o momento em que brotaram os primeiros
pelos pubianos e quando surgiu o “peitinho”, servindo de chacota da parte de
alguns adultos com ínfima inteligência emocional e afetiva.
| Nos meus sixteen |
É, mas uma hora, o giro sobe, momento de entrar pelos anos “teen”. Thirteen veio primeiro. Oficialmente adolescente, mas muito antes começava de fato a tal puberdade, superando além dos nineteen. Para os equivocados ou maledicentes, fui um “aborrecente” daqueles. Enfrentei minhas inseguranças, como tantos outros, pensando ter entrado em um fosso sem uma corda para retornar à superfície. Saí da caixa de brinquedos, às vezes, retornando e tentando encontrar uma nova “vibe”, pois parecia ser urgente crescer, diante de olhares tortos, deixando-me boquiaberto diante do espelho vendo minhas mudanças que nunca param. Sonhei dormindo ou acordado com deliciosos beijos, molhando o travesseiro, logo após uma partida de jogo de botão; ouvia “Non ho l' Età” de Gigliola Cinquetti para, em seguida, brincar de pião, pipa ou pique da lata com uma turminha mais nova.
Quem diria, um velho seria o meu porto seguro. Era da
família, um primo de minha avó. Ele me incentivou e não me odiou. Adentrou pelo
meu passatempo, lançando uma bola de gude ou apreciando uma canção na vitrola.
Parecíamos ter a mesma idade e, até acho que pensávamos do mesmo jeito. Tornou-se
mãe, sem perceber, com seu jeito feminino no acolher, sem o machismo que
imperava pelos arredores pelos quais eu me iludia. Mas, a iniciativa de
programarmos algo juntos era minha, pois ele respeitava o meu espaço. A
experiência dele me fascinava.
| Fim da infância |
- Own, véi! Vamos à praia hoje? Eu provoquei o meu amigo.
- Eu? Com esses cambitos magricelos? A sua “patota” vai te
zoar tendo a minha companhia. Respondeu o que se achava velho.
- Esquenta não! Nem pensa nisso. Só querem curtir.
- Então, vamos! Disse o homem, todo animado.
De longe, a galera viu aquela dupla “sui generis” chegando,
tomando conta e preparando o espaço para um vôlei na areia. Uma bola colorida e
outros dois se apresentaram para compor o time adversário. Eu e o velho de um
lado e dois coroas “boa pinta” do outro. A brincadeira tornou-se para nós como
se fosse um jogo oficial de olimpíadas. Jogamos muito, mas perdemos por dois
sets a um, parciais de 18x21, 22x20 e 19x21. Foi por pouco, mas saímos de
cabeça erguida. Recebi o incentivo do meu companheiro quando disse que eu
joguei muito bem, sendo que na verdade ele é quem salvou muitas bolas.
| Não se iluda com o tempo, ele passa... |
O meu parceiro, após a partida, pensou em pagar um “drink” pra mim. Mas, lembrou-se da minha idade. Então, foi solidário comigo e pediu duas águas de coco com uns petiscos no quiosque Red Beach. As meninas e meus colegas de escola se aproximaram. Viram o jogo e nos cumprimentaram. Daí apresentei o meu camarada, que interagia com cada adolescente numa simpatia que muito me ensinou. Vi o jeito dele em acolher e se envolver com os desconhecidos. Contava um caso, explicava algo curioso, envolvia o círculo, sem querer aparecer ou dominar a conversa. Ouvia mais, falava menos. Mas dizia o que valia ser ouvido.
Quantas pessoas me provocavam afirmando que eu estava sendo
amigo de um acabado. Ele era passado considerando o número, mas era só número. Percebi
que se eu me convencesse disso, na verdade, estaria perdendo. Alguns me
perguntaram se seria um pedófilo. Eu fiquei até triste, pois sempre houve
respeito em nossa amizade. Outros questionavam se ele era gay, denotando o
preconceito presente até na minha geração. Se fosse, que mal teria, desde que
houvessem os limites e a deferência de parte a parte?
| Meu velho e eu |
Poucos sabiam desse meu amigo. Só o rotulavam. Mas, eu sim, sabia que ele ainda estava sofrendo muito pela perda da sua eterna namorada que conheceu na juventude. Ficaram unidos muitos anos até ela ficar doente e se entregar novamente a terra. Ele, por sua vez, dizia: viajou e um dia haverá um novo encontro. Ter a aparência de idoso, com um cabelão comprido ou grisalho, um tanto prateado dos lados ou curtos, de bigode ou barba, tanto faz, impõem algum preconceito na vida de um indivíduo. Constatei, apesar dos pesares, que gostava e entendia de literatura. E ainda, escrevia para um jornal da cidade que circulava uma vez por mês, que nem sempre era entendido diante dos seus insistentes questionamentos sobre a sociedade infeliz escondida debaixo dos tapetes.
E quantos anos esse meu amigo teria? Essa era a pergunta de
todos. Ele não dizia. Insistia em viver sem rótulos e contagens. Por isso,
mesmo na tristeza, sorria, só ria. Lia de forma contumaz para conhecer; dialogava
sem máscara para crescer; interagia com as horas como um bailarino que, em cada
valsa melodiosa, roda para não se render.
E eu, quantos anos poderia ter naqueles tempos? Pensei parar
de conta-los para realmente me encontrar em sabedoria sem perder a energia de
quem ainda tem muito a aprender. Em cada interação lutei para esquecer das
piadas a mim direcionadas, buscando uma ressignificação, a fim de jamais
depender da opinião de ninguém.
Na verdade, continuo me questionando: quando termina a
juventude e quando começa a velhice? O que nos faz existir neste intervalo que
talvez seja uma mistura de ambos?
Só sei mais uma pequena coisa: aprendi a amar, partilhar e
sorrir com um velho que conquistou um adolescente eterno!
Muito bom. ♥️
ResponderExcluirObrigado pelo incentivo!
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