Gangorrices

Por Marcos Almeida 


Chegando bem na manhãzinha, após minha manhazinha diante da minha mãezinha, vi, da janela do quarto, servia de correio, ao lado de papai Zé do Correio, um tropeiro e seus animais. Subiam rumo ao Taquari, lá pras bandas do Rio Soberbo. Ele, nada soberbo,  apenas tropeiro solitário.

De longe, sibilava o vento; os atritos das ferraduras no cascalho da estrada, poeira espalhada pelo ar; perto, o som do telégrafo, insano, enviando e recebendo mensagens, vomitando sua fitinha fininha, infinda. 

Olhei de soslaio rumo à gangorra, percebi um menino querendo brincar. Só. Tentava. Saí pelo corredor correndo na maior correria. Na escadaria, tropecei. O tropeiro viu, riu, partiu. O amigo me deu a mão e deixou-me na parte de baixo da gangorra. Franzino, não tinha força pra abaixar nem altura pra subir. Estiquei minhas pernas, cresci, meu lado cedeu. Nivelada, ficamos equilibrados e a brincadeira, por longo tempo, se alongou.

O impulso. O tropeiro não mais se enxergava. O telegrafista fechou o posto, abanou, em nossa direção, um papel dobrado. Hora de concluir a sua missão. Sigui junto e o novo companheiro de gangorrices jamais revi. Nem o tropeiro...



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