Pular para o conteúdo principal

O torresmo (crônica)

Por Marcos Almeida

Duas pessoas fazem-me lembrar do torresmo, uma das mais saborosas iguarias dos mineiros: um dono de boteco em minha cidade e o meu irmão. Nasci em uma família apreciadora da carne suína, da gordura de porco para refogar o arroz e o feijão. Linguiça feita com as tripas do bicho. Por agora, vegetarianos e veganos lançam abelhas com seus ferrões aos meus ouvidos.

Boteco

Quem me dera não precisar controlar o colesterol, poder fritar uma costelinha para o breakfast do mesmo jeito que meu brother fazia. Acompanhamento para ingestão de fibras, poderia ser doce de abóbora, lembrando que o porquinho é apaixonado por essa cucurbita. Brasil afora, a abóbora é conhecida pelo mesmo apelido do dono do boteco: Jerimum. Os fregueses pensavam que ele tinha origem nordestina. No entanto, era filho de irlandês com uma tailandesa. A mistura trouxe um ser humano maravilhoso para o nosso convívio.

A estufa de salgados no boteco do Jerimum era repleta de torresmos e linguiças. Uma pinga para abrir o apetite, um gole pro santo, e a gordura escorria pelos cantos da boca. O chão era de cimento queimado e todo manchado.

Meu irmão, um dia, entrou no boteco. Pediu a “mardita mais um torremo”. Gostava da branquinha, pois a amarela dava “quemação no estambo”. Era mais ou menos dez horas da manhã. Ao ver a sua patroa passando perto, tentou esconder-se, dando a volta pelo balcão. Foi nesse momento que ela viu o elemento escorregar e estatelar no piso gordurento. Pensou ser algo sério e correu para socorrer o marido.

Chegando perto, ela perguntou:

— Está tudo bem?

Ele respondeu:

— Num sei se o golo pru santo foi poco ou se tava isperanu um pedaçu du torremo para tirá u gostu...


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Mais do que ver, que eu possa visitar!

Por Marcos Almeida Desde a minha infância fui apaixonado por fotografias por me conduzir a imaginações do que cada momento registrado representava. Eu olhava por algum tempo aquele papel mágico. Como isso pode acontecer? Se estava sozinho neste exercício, certamente pouco entendia o significado. Não conseguia muitas vezes decifrar o lugar, as pessoas, a ocasião. Porém, quando passava às vistas pelos retratos, com a explicação de alguém que conhecia a história, tudo mudava. Desabrochava algum significado. Até parecia que aquele instante em preto e branco de vários anos atrás começava a fazer sentido pra mim. Conhecer os antepassados, lugares onde viveram, o que fizeram, as festas e cerimônias, tudo passava por um novo olhar. Meus bisavós ao centro Pai Quim e Mãe Quinha com familiares - Anos 1960 Tempos depois, novamente voltava a procurar no fundo do guarda-roupas a caixa de fotografias para apreciá-las. Alguns casos que eu conhecia também traduzia para os novos curiosos que buscavam se...

Caixa de retratos

Por Marcos Almeida Desde a infância gostei de ver retratos. Sempre me emocionava manusear as fotos guardadas numa caixa que ficava escondida em algum armário da casa. Para abri-la, eu tinha de pedir a um adulto que me acompanhasse. Sentar no sofá da sala com alguém querido e observar cada detalhe daquelas lembranças era um rito. As imagens em preto e branco, que mostravam cenas inesquecíveis — bodas, festas familiares, a turma de catecismo, encontros de amigos — sempre com poses ora solenes, ora despreocupadas, conforme o instante. Tudo isso pertencia a outra época, ao século passado, no fim do segundo milênio da era cristã. Turma Catequese Caldas (1974) Falando do Mestre, entre as relíquias dos antepassados aparecem pequenas lembranças religiosas, os chamados “santinhos”, amarelados pelo tempo e cuidadosamente preservados por mães devotas. Dos que mais guardo na memória estão Santo Antônio e Santa Bárbara, venerados como protetores contra a solidão e contra os desastres da natureza. P...

Zé do Correio, um pai extraordinário!

Por Marcos Almeida Outro dia, sonhei com o meu pai! Ele faleceu em 30 de dezembro de 2008, após um Natal especial em família. E foi como ele queria: sem sofrer. Do nada, pediu para minha mãe registrar um jogo na lotérica. "Mega-Sena acumulada... quem sabe?" Questão de meia hora, ela voltou e... Apesar daquela dor da perda, hoje a memória do corintiano mais querido de Caldas é de alegria para todos de nossa casa. Também pudera: “Zé do Correio, caboco feio, caiu do arreio, no campo do meio, meio “disgueio”...” era o seu jeito de se apresentar para as pessoas que apareciam em seu caminho. Como deixar uma marca triste após ultrapassar o seu tempo nesta terra? Muitas outras histórias com esta no livro "Onde o amor fincou raízes" Desde muito cedo aprendi com ele a importância da alegria na vida, pois, em muitos momentos, enfrentamos, como toda família, situações complicadas tanto na economia como na convivência. Nada que o bom humor não desse conta de tudo isso. Quando el...