A recusa em ouvir as respostas


Por Marcos Almeida

Tenho algo em mente e acredito que é importante considerar: qualquer começo pode ser belo e eloquente, mas estejamos preparados para o final. Longe de mim querer desmistificar crenças, especialmente quanto a eternidade e não é essa a minha questão, por ora. No entanto, vejo pouco preparo, categoricamente das pessoas do sexo masculino, para o que se convencionou atualmente a nominar como mudança de ciclo. Um relacionamento, por exemplo, tem início, meio e fim. Então, de que adianta entrar de cabeça sem ter a mente e o coração equilibrados para momentos de separações, voluntárias ou não, para os finais?

Renata, Tio José Nilton, Marcos, Ivete (mãe),
José Cândido e Maria Aparecida (meus avós).

Posso até estar caindo em alguma arapuca de palavras, armada por mim mesmo, mas gosto de me arriscar. Pela minha vivência familiar, com tantos erros e desencontros, aprendi com meu pai a importância de resguardar minha mãe e minha irmã. Mas não somente. Ele, apesar de seu jeito brincalhão, uma vez foi firme comigo, um adolescente, dizendo que era minha obrigação valorizar e respeitar todas as mulheres e, principalmente, nunca imputar qualquer violência sobre elas, independente de raça, cor ou outras condições e escolhas. Seria uma decepção para ele se eu não acatasse essa ordem. Sim, foi uma determinação paterna com o total apoio da minha mãe. Neste contexto, foi semeado em mim o respect for all women, que pode parecer piegas, mas como afirmei antes, em consideração àquelas conhecidas, minha mãe, irmã, avós, tias, primas, amigas, vizinhas, estendendo após meu casamento para esposa, sogra, cunhadas, filha, sobrinha e desconhecidas.

Meu pai, Vó Sabina, Tia Arlete, Adriana e minha mãe

Mesmo assim, reconheço, pela sociedade em que fomos – e continuamos sendo – “criados”, não é nada fácil. Educar filhos até agora é uma arte rara, onde é mais fácil deixar o acaso aliado ao provimento das necessidades básicas dar o tom da criação. Na minha adolescência e juventude sempre percebi, sem muito questionar, a dominação sobre o “sexo frágil”. Era comum aqueles que abrem o peito para defender que homens precisam ser os provedores do lar, tendo a última palavra, e a mulher deveria ser submissa, obediente, reforçando o pensamento chamado patriarcal. As relações são permeadas por um submundo capitalista, que ainda tem a cara de pau de lucrar com o trabalho gratuito, sobrando para a “dona da casa” serviços de sua estrita responsabilidade, como lavar e passar a roupa, arrumar a casa, cuidar dos doentes e idosos. Tudo isso parece perdurável e só se transformará com a superação de tamanha desigualdade que, nós homens, fingimos não perceber. Algumas mudanças ocorreram, sim, muito mais pela luta feminista do que por uma visão de mundo partilhada. Entretanto, pense comigo, seria o autointitulado macho alfa o mais capacitado para estabelecer a harmonia, superando os seus conceitos e preconceitos?

Uma criança pergunta ao pai, por que xingou e bateu na mãe; uma mulher negra, para o “sinhozinho” branco, o motivo de tamanho ódio; uma jovem, ao seu ex-namorado, por que desfigurou o seu rosto; a senhora madura se questiona sobre a consequência em querer viver só. E raros homens se perguntam como ser um companheiro de convivência, e aqui deixo de lado a redundância, como viver em companhia de outra ou outras de forma equânime.

Júlia e Vó Maria

Recentemente, comecei a participar de um clube de leitura com outros leitores e leitoras espalhados por Minas Gerais e nos reunimos virtualmente para discutirmos, em uma noite, sobre o livro do mês. “Enfrentei” duas leituras impactantes: “O invencível verão de Liliana” de Cristina Rivera Garza e “O Ponto Cego” de Lya Luft. O primeiro trata basicamente de um feminicídio (*) ocorrido no México, onde a autora e irmã de Liliana, assassinada cruelmente na sua juventude, buscou investigar toda a história após trinta anos de sofrimento gerado na família. O segundo livro, aborda questões como o machismo, solidão, culpa e a busca por sentido na vida. “Quando os dois discutiam, minha Mãe cedia: olhava para o lado, amaciava a voz, procurava as palavras que não o irritassem. Mesmo podendo vencer ela queria perder. Perder era o seu conforto. Outras vezes, calava: olhava um ponto longe e ali se interrogava.” Lya Luft.

Após o meu envolvimento com tais obras, aumentou o meu asco sobre falsos homens que se dizem cristãos, bons pais, namorados ou esposos exemplares e bem-sucedidos, mas que entre quatro paredes ou quando os outros não veem, são verdadeiros demônios tentando determinar a história daquelas que deveriam ser consideradas acima de uma necessidade de posse.

“Mulheres em busca de justiça. Mulheres exaustas e juntas. Fartas, mas com a paciência que só os séculos marcam. Enfurecidas até o limite.” Cristina Rivera Garza

Marcos, Ivete, Sabina e Renata

Se de um lado elas estão lutando contra uma estrutura machista, orquestrada sem a efetiva participação do universo feminino, alguns machões exaltam seus movimentos exclusivistas, promovendo uma lavagem cerebral sobre tantos outros – e outras – que se envergam para a narrativa do “braço forte defensor da família”. Aí, quando uma dona (no sentido de ser dona de si) diz algum NÃO, o que pode acontecer? Todos nós já sabemos. E o que parecia ser inquebrantável – uma bela palavra que circula amplamente – torna-se pó, sobrando o que tem de pior para a parte que não é a mais fraca, mas sim fragilizada por um ambiente ultrajante da “casta masculina”.

Acredito que a maioria de nós não é capaz de cometer atrocidades como as que temos assistido nas diversas mídias ou nas ruas, do outro lado do muro ou até mesmo dentro dos lares. Mas, dá pra constatar que, mesmo quem é sensível ao problema, não está fazendo o necessário para a urgente transformação. Estamos nos omitindo há muito tempo, pois a ideia prevalente acaba deixando o problema delas para elas. Precisamos convencer mais mentes a tornarem-se solidárias, com atitudes, palavras e exemplos. Quem sabe, nos reunindo, nos encontrando para dialogar, desaprender e reaprender. Se o nosso movimento crescer, mesmo que fiquemos nas planícies, conseguiremos engajar os que pensam na vida plena considerando cada ser que respira sobre esse chão regado pelo sangue de tantas mulheres. Poderemos cobrar das autoridades, ajudar a dar dignidade para as crianças que sofrem vendo suas mães, tias, avós e irmãs diante das torturas psicológicas, impulsionando a promoção das jovens que sonham além dos rótulos devido a caminhos escolhidos para trilharem. O que não dá pra fazer é continuarmos apáticos diante de tudo que tem provocado essa mortandade feminina.

Maria, Júlia, Milva e Otávio

Precisamos dizer, juntamente com elas, basta! Afirmar que o problema da violência contra meninas, moças, garotas e senhoras é também de quem deve ser companheiro (do latim, companio, aquele que reparte o pão). Não vamos mais assistir inertes, pois são 4 mulheres mortas e mais de 220 estupradas por dia em nosso país. Pior, no caso das pretas que foram vítimas em mais de 60% dos homicídios de mulheres (dados de 2024). Sabemos que tudo isso são dados de fontes confiáveis, mas existem tantos outros não registrados por medo da denúncia e da possível privação da liberdade futura. Perceber essa conjuntura até nos causa indignação. Mas chegou a hora de nos conscientizarmos e impulsionarmos ações concretas. (**)

Como diz o poeta, precisamos estar atentos e fortes, juntamente com todas elas. Não dá mais para recusar a ouvir as respostas sobre esse triste cenário, com seus padrões sociais, até agora tão arcaico.

 

Cleide, Renata e Ivete
Alegria

(*) O feminicídio é definido como um homicídio qualificado contra a mulher por razões da condição de sexo feminino, seja no contexto de violência doméstica e familiar seja por menosprezo à condição de mulher. Não se trata apenas de um crime contra a vida, mas de um crime de ódio com motivação baseada em gênero.

(**) Para saber mais, acesse o link abaixo:

Casos de feminicídio no Brasil - 2024

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