Por entre beliches, caronas, foiçadas e abacates - Parte IV

 

Parte IV

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Qualquer um que tenha vivido um tempo naquela escola agrícola poderá estar comigo nesta recordação. Cada pedacinho gerou uma memória afetiva: os bancos do pátio, a caixa d’água, a estradinha de terra até o estábulo, o pomar e o cafezal. Mas, digo que havia um lugar que fazia a gente balançar, o corpo e a alma. Eram os abacateiros, especialmente quando a gente tinha um tempo para um descanso sob a imensa sombra. Após a preguiça, enquanto alguns catavam os frutos caídos com algumas bicadas de passarinho, outros subiam em seus galhos tentando colher os mais bonitos nas enormes copas das frondosas árvores. Era momento de muita risada, de contar causos e vantagens, de ralar as pernas nos galhos roliços e de não perder o jeito de criança. Sabíamos que a comida do refeitório, especialmente no jantar, não dava a sustança para uma galera em plena fase de crescimento. Então, a colheita era dividida, indo para os armários daqueles coletores e de outros que ofereciam seus espaços para as frutas amadurecerem. Embrulhávamos em jornais para acelerar o processo. Tornavam-se uma boa sobremesa em alguma noite quando a barriga roncava. Não sei se em outra vida formos sabiás ou formigas, porque o açúcar cristal tomava quase a metade do pote quando era misturado com a polpa cremosa.

Turma de 1982 - EAF Muzambinho/MG

Quem viveu um pouco disso sabe o que tinha de bom e de ruim, de certo e errado. Também, em cada um de nós, não sendo perfeitos, fazíamos das tripas coração para estabelecermos nossos espaços, para superar preconceitos advindos através das famosas gozações. Podíamos dizer que formávamos uma família, com todas as vantagens e desvantagens. Alguns traziam ovos, sabe-se lá de onde, e com o leite que vinha do refeitório em uma caneca, dava pra fazer uma gemada. Outros mais aventureiros caçavam rãs, cozidas em algum fogareiro ao fundo do alojamento. Se alguém não dividia o que conseguia para comer era chamado de ridico. Talvez, por isso, alguns hoje podem pensar que colocar as coisas em comum seja comunismo (desculpem-me pelo sarcasmo).

Time de Futsal - 1982

Certamente, compartilhar o cotidiano com uma comunidade de cerca de trezentos internos, em média, cem por série, trinta e cinco por turma, não era algo simples. Enfrentamos o trote ao entrarmos na escola. Eu tive o meu cabelo tosado e precisei buscar um barbeiro para raspar o que restou, amanhecendo careca para o próximo dia de aula. Dava medo de ir tomar banho quando os veteranos estavam à caça de algum gabiru pra sofrer “nas mãos” deles. Parecia crueldade – e era – e que prontamente conseguíamos nos organizar para escapar da maioria das brincadeiras de mau gosto de alguns poucos que se julgavam deuses. E o mais interessante é que imaginávamos que quando no terceiro ano, vingaríamos nos próximos calouros. Planejávamos e trocávamos ideias de como seríamos respeitados e temidos. Dávamos gargalhadas só em confabular as ideias malucas que surgiam. Mas, até hoje agradeço a Deus, que o que fizemos quando nos tornamos veteranos foi algo mais civilizado e ameno. Conseguimos evoluir e não impor sofrimento a ninguém, a não ser por um ou outro bem fora da curva que não acatou a nossa decisão de banir trote violento. Optamos, portanto, pelas brincadeiras de integração.

Formatura 1982 - EAF Muzambinho/MG

Tudo isso seria para coroar tantas coisas boas que vivemos naquele espaço. Aprendemos, sorrindo e chorando, abraçando e brigando, sem perceber que o tempo havia passado ligeiro. Algumas amizades perduraram. Outras, esfriaram ou se perderam. Muitos nunca mais vi. Outros faleceram jovens. Ou passando os anos, outros foram ceifados por doenças. Encontros da turma foram realizados, talvez na insistência em não se perder o que foi experenciado.  

O que sinto agora? Após mais de cinquenta anos de ter provado um mundo muito diferente, com a minha visão de mundo, sei que foi fundamental para o meu crescimento como cidadão. As dificuldades enfrentadas na escola, em um contexto político e econômico do País dos anos 1980, acabou provocando sentimentos diferentes. Pouco se abordou sobre a importância de negociar, de ouvir, de compartilhar sentimentos; o que aprendemos foi na prática, na interação entre os próprios alunos. Mas naquele lugar, chegamos praticamente sem nada e saímos com um diploma de Técnico em Agropecuária. Visões de mundo sofreram alterações. A vivência pós mundo juvenil jogou cada ex-aluno na vida real de luta e sobrevivência.

Eu e Bebeto formamos juntos
Pedra do Coração - CALDAS/MG

Agora, os abacates estão disponíveis o ano todo; as foiçadas foram substituídas por roçadeiras ou concreto ou asfalto ou glifosato; as caronas que tanto almejávamos agora nem oferecemos em nosso individualismo exacerbado. E as beliches?

Ah, as beliches de armação em aço, daquele enorme alojamento, jamais foram as mesmas por não mais nos despertarmos após lindos sonhos, intensos e compartilhados...

Aqui conversamos tantas vezes...


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