Por entre beliches, caronas, foiçadas e abacates - Parte III

 

Parte III


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Era compromisso dos futuros técnicos em agropecuária seguirem as regras da direção e da supervisão. Quando nos ausentávamos da escola nos fins de semana, precisávamos avisar se voltaríamos no domingo ou na segunda-feira pela manhã. Havia um monitor para conferir de acordo com o número do aluno. Não era permitido perder a primeira aula as 7h da manhã, fosse em sala ou prática (no estábulo, na pocilga, na horta, etc). Também não era permitido sair de férias antecipadamente. Essa bobeira eu dei quando estava no último ano, porque estava tranquilo com as notas e louco para “cumprir” alguns compromissos juvenis em minha terrinha. Mas quando voltei para acertar as questões para a formatura, fui surpreendido por um professor com uma foice e um pasto inteirinho para roçar, por não me sujeitar ao regulamento. Foram três dias de serviço pesado do pobre “gabiru”. Meu pai ficou sabendo. Sabe o que ele fez? Nada. E ainda falou, “bem feito por desobedecer ao diretor”. Será que nos tempos atuais seria diferente?

Zerbini, Fernando, Chiquinho e Walter
Amigos da EAFM

A foice parecia nos seguir. Por isso, havia uma outra piada interna entre os alunos. Um certo educando, que diversas vezes, fugia do serviço um tanto mais pesado e deixou de comparecer a uma “aula prática”. Na verdade, era uma empreitada que os agricolinos precisaram executar para ter um fim de semana liberado. Era uma antecipação da rotina mais pesada para que ninguém ficasse escalado em um feriadão prolongado. As enxadas, rastelos, tesouras de poda, foices e outras ferramentas foram distribuídas para o grupo. O professor começava a chamada e o aluno respondia com qual instrumento estaria.

- Aloísio!

- Enxada, respondia o aluno.

- Acácio!

- Tesoura, disse mais alto por estar no fundo do galpão.

- Afonso! Nome fictício...

Silêncio. Sem resposta. O Afonso não estava?

Um combinado que era estabelecido, uma parceria, na ausência de um certo, o outro assinaria a lista. Mas desta vez, não havia lista de presença. Seria dizer o nome da ferramenta.

Então, o professor repetiu:

- Afonso!

Alguém, no meio dos quase sessenta pupilos, falou em alto e bom som:

- Foi-se!

O mestre não pestanejou e marcou presença para o Afonso, que por algum motivo não pode estar com a foice na mão. Continuou a chamada até o último interno, com risinhos entre uns e outros não entendendo nada.

Conversas e causos

Como era uma empreitada, todos tentavam contribuir da melhor forma possível para que a turma conseguisse gozar de um descanso em uma boa sequência de dias. Alguns iam raras vezes visitar os pais. Alguns, moravam distantes, em Malacacheta, norte de Minas, mas outros eram das beiradas de Muzambinho, como Guaxupé, Cabo Verde, Monte Belo e Jacuí. Um feriado prolongado acabava mantendo alguns gatos pingados somente para a ordenha e alimentação dos animais. Alguns funcionários também acompanhavam os plantonistas. No retorno à rotina, muitos apareciam com os cabelos cortados e visual diferente. Ou chegavam com alguma roupa nova e um bocado de doce caseiro que mal dava pra a primeira noite após o regresso.

Açude pra refrescar

Nas escalas de férias, onde havia o revezamento dos aprendizes para manter as atividades rotineiras, também sobrava tempo para nadar no açude, assistir TV, jogar um pebolim no salão do grêmio estudantil, praticar esportes, como peteca, speed ball, basquete, vôlei ou futebol, sair para paquerar as meninas da cidade ou simplesmente curtir a solidão nos imensos dormitórios praticamente vazios ou curtir o por do sol no fundo do campo de bola. Quantos sonhos passavam pelas nossas mentes, mas vivíamos uma espécie de fraternidade arrepiada, ou seja, ajudávamos uns aos outros, mas também não superávamos facilmente todas as nossas farpas de relacionamento infanto-juvenil.

Por isso, as foiçadas não eram apenas com as ferramentas que roçavam o mato, mas que deitavam alguns vínculos, apesar de não cortar suas raízes.

(continua em breve)


Comentários

  1. Respostas
    1. Verdade! Quem viveu um tempo de mudanças em um ambiente que produzia sonhos! Obrigado por comentar!

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  2. Obrigado por compartilhar lembranças tão marcantes Marcos!

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    1. Eu era o "formigão"

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    2. Maravilha saber que gostou. E quantas outras lembranças de um tempo de sonhos!

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