Retratos de um certo padre caldense
Por Marcos Almeida
Fiquei sabendo que havia chegado em Caldas, na década de
1970, não me recordo exatamente o ano, um padre conterrâneo, de uma família de amigos
de infância. Eu ouvia dizer:
- O tio padre agora vai ser padre aqui...
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| Imagem cedida por Tabir Dal Poggetto |
Eu ficava sem entender essa mistura de tio e padre. Na minha cabeça infantil, imaginava que se um sacerdote não poderia casar, impossível ter sobrinhos. Agora dou risada desses meus pensamentos pouco analíticos da época. Mas o que mais importava pra mim naqueles tempos era jogar bola, brincar de pique da lata, trocar figurinhas e nadar nos rios de Pocinhos. Quando eu passava próximo à uma igreja, previamente orientado pela minha mãe, me benzia, fazendo o sinal da cruz. Era o mínimo que se poderia exigir de um moleque, tendo em vista que não gostava de ir para as rezas e missas. Via o padre quando não tinha jeito. Passei aperto na minha primeira comunhão, pois seria necessário confessar os meus pequenos pecados, minhas traquinagens e desobediências. Acabei recebendo a Eucaristia com nove anos e depois os anjos (de pena grande, por sinal) que cuidaram de mim.
Conclui o ensino fundamental em 1979 e parti para estudar em
Muzambinho/MG, na Escola Agrotécnica Federal (atualmente IF SUL DE MINAS). Por
lá vivi três anos de minha adolescência. Acabei fazendo amizade com alguns
amigos que tinham mais conhecimento da Bíblia e participavam em suas
comunidades, católicas e evangélicas. Tive o privilégio de participar de algumas
conversas por entre os beliches do dormitório da escola para estudar a Palavra
de Deus, apesar de não ser assíduo. Acabei tomando gosto pela leitura dos
Evangelhos nesta fase, muito mais por curiosidade do que pela fé.
Em 1982, após receber o diploma de Técnico em Agropecuária,
voltei para a casa dos meus pais. Fiquei sem emprego até o início de 1984. A
carência de grana acaba fazendo a gente a procurar força. Eu dependia da sobra
do salário curto do meu pai, já aposentado. Aprendi a datilografar nesse tempo,
estudei para fazer vestibulares, mas também continuaria sob as expensas dele.
Pouco antes de completar dezoito anos, comecei a trabalhar na Prefeitura de
Caldas, como Office boy. Fiz muitos amigos e aprendi muito, especialmente a me
interagir com gente grande, assumindo responsabilidade. Fiquei muito grato à
Deus por esse momento. Acabei participando, vez ou outra, da missa e conhecendo
o jeito do Padre Sebastião, que parecia ser acolhedor, mas também muito firme
nas suas palavras. Via amigos próximos a ele, ajudando nos serviços da igreja e
da comunidade, mas fiquei em uma distância segura para não me envolver, para
não ser visto pelo nosso pároco.
Pouco tempo antes, Padre Poggetto havia comemorado seus
vinte e cinco anos de sacerdócio. Houve muita festa, celebrações, muita gente
de fora vindo. Eu de longe, percebi o movimento. Mas preferia ficar no meu
canto.
Quando recebi o convite para participar da Jornada Cristã, efetivamente
conheci o tio padre. Ele sabia muito sobre os meus pais. Conhecia bem meus avós
que eram vizinhos de uma de suas irmãs. Fui interpelado por ele nesse encontro
com muita alegria. Percebeu que eu estava gostando daquele momento e me
convidou para ser leitor nas liturgias. Prontamente aceitei. Comecei a dar os
meus primeiros passos, depois me envolvendo com o grupo de coroinhas, Pastoral
da Juventude, Catequese de Crisma e muitas outras atividades. Por convite dele,
coordenei duas Jornadas Cristãs, nos anos seguintes, com o envolvimento de
muitos leigos.
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| Padre Poggetto e grupo de Coroinhas |
Acabo falando de mim tentando contextualizar o quão importante, o primeiro sacerdote natural de Caldas, foi para a minha espiritualidade. Nosso vigário paroquial convidava vários jovens para estarem dentro da sua casa para, quem sabe, descobrir vocações religiosas e indicando o caminho para o seminário. De imediato deixei bem claro para ele que não tinha vocação sacerdotal e acabou me dando muita força para descobrir o que me faria feliz não só na comunidade.
Falar da pessoa, da personalidade e do seu jeito é um risco.
É a minha visão que certamente não se replicará por mais ninguém. Sabia da sua
dedicação ao trabalho pastoral, mas senti em algumas situações o seu cansaço,
como ser humano que era. Tivemos conversas difíceis, porém respeitosas de parte
a parte. Na maioria das vezes, conversávamos descontraidamente, sobre coisas
engraçadas, sobre o cotidiano da paróquia e do que poderia ser feito para que
os fiéis permanecessem animados na fé. Ele conseguia fazer eu e muitos amigos a
termos vontade de ajudar em várias atividades da paróquia.
Nossos papos surgiam normalmente, rumo a alguma comunidade
rural, no fusquinha branco, que não ficou nenhuma vez atolado – pelo menos
comigo – nas estradas rurais enlameadas. Fui de carona com destino a várias
comunidades: Pereiras, Laranjeiras, Santana, São Pedro, Santo Antônio,
Pocinhos, Pedra Branca, Campininhas, Rio Pardo, pelo que me recordo com
certeza. Talvez em outras, pois haviam cerca de trinta bairros atendidos. Eu
fazia questão de levar a mala com os objetos litúrgicos e gostava de prepara o
altar juntamente com alguma liderança da comunidade. Enquanto isso, nosso
pastor ia para um cantinho ouvir as confissões do povo. Vez ou outra, eu tomava
a iniciativa de ir ensaiando os cânticos para a missa ficar bem animada.
Quantas pessoas maravilhosas eu conheci nessas andanças, tudo por intermédio do
já amigo Tião – como seus irmãos o chamavam. Eu, jamais o chamei assim. Sempre
padre. Alguns leigos o chamavam só pelo sobrenome, sem o título. Aparentemente
não ligava. Só Deus sabe.
O nosso pastor era de um estilo tradicional, diferente de
tradicionalista ou de mente arraigada. Tinha suas convicções e era difícil
superar suas argumentações. Contestava movimentos que se achavam maiores que o
Doutrina Social da Igreja. Sua homilia procurava estabelecer a conexão entre a
Palavra de Deus com a realidade do povo. Envolvia a assembleia com sua fala característica
reconhecida onde quer que estivesse. Seguia a liturgia conforme a tradição e
evitava novidades sem validação canônica, se assim posso dizer. Era pontual em
seus compromissos e tinha ojeriza aos atrasos em cerimônias, especialmente em
casamentos. Alegava ser um desrespeito com toda a comunidade e os convidados.
Mas, com o tempo, percebi que se tornou mais flexível nesse aspecto. Com a
idade avançada, não deixou de presidir as celebrações da Eucaristia mesmo com a
grande dificuldade para enxergar onde acabou necessitando dos rituais
litúrgicos impressos com letras enormes. As últimas missas das quais participei
na igreja do Rosário, mesmo com toda a sua dificuldade, havia um zelo e uma
dedicação vocacional que fazia com que muitos enxergassem nele um sacerdote que
havia cumprido a sua missão.
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| Participação como comentarista |
Cantava muito bem. Afinado e melodioso. Os cânticos litúrgicos ficavam mais harmoniosos com a sua participação pelo microfone do altar. Gostava de participar dos ensaios especialmente para as festas como a Páscoa e o Natal. Quando era necessário utilizar apenas a voz, sem instrumento algum, como na celebração litúrgica da Paixão do Senhor, todos percebiam a sua qualidade vocal. Recebi muito incentivo da sua parte, mesmo não tendo a mesma afinação e experiência dele, para encarar o microfone e conduzir a assembleia para a participação nos cânticos. Dizia ser mais importante aparecer a voz do povo do que a do microfone. Um jovem quando perde a vergonha, realmente não a encontra mais. Foi o meu caso. Porém, uma vez me deu branco em um certo cântico em uma celebração importante. Não conseguia encontrar o tom correto. Esqueci da letra também. Mas, ainda bem que ele estava atento e me socorreu. Melhor dizendo, salvou a cerimônia. Depois, continuei sem graça, mas pelo seu olhar entendi que não seria o momento de entregar os pontos. Após tudo terminar, fui até a sacristia onde me acalmou dizendo que já havia acontecido com ele, que seria algo normal. Isso também me ajudou a buscar incessantemente a humildade, porque estamos sujeito a falhas e não sabemos tudo.
Posteriormente, passado algum tempo, um jovem do bairro
rural dos Pereiras passou a residir na casa paroquial para concluir seus
estudos e pretendia ingressar no seminário de Pouso Alegre: João Batista Neto.
Acabamos fazendo amizade, com mútuo incentivo ao propósito de cada um. Acabou
sendo meu compadre, como padrinho de batismo do meu filho. Atualmente, Padre
Joãozinho é Pároco de Congonhal. E nós dois, pelos anos 1986/87, fomos
convidados a viajar com nosso vigário até a Paróquia de Maria da Fé, onde a
recepção foi calorosa pelo Padre José Franco apesar de um frio daqueles. Era
novena da padroeira e foi lá que ouvimos uma das mais belas homilias do nosso
protagonista, que marcou também aquela comunidade. Interessante que fica
impossível recordar o tema ou as palavras, mas ficou latente a convicção da
nossa liderança espiritual ao falar sobre o Reino de Deus. E eu tive uma
alegria maior nesse dia em poder abraça-lo agradecendo pelo que sua mensagem havia
tocado o meu coração fazendo um grande bem. Hoje tenho mais certeza de que foi importante
para mim esse momento, pois não deixei para compartilhar em um futuro incerto.
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| Padre Poggetto em 2013 |
Ele celebrou o meu casamento com minha companheira de vida na Igreja Matriz. Batizou nossa filha e esteve presente no batizado do nosso filho. Também celebrou nossas bodas de prata na Igreja São Vicente Ferrer em Pocinhos do Rio Verde. Sempre que podia estava conosco em nossas confraternizações familiares. Era tão gostoso fazer uma visita para esse amigo, especialmente quando íamos eu, Milva, Júlia e Otávio. Muitas risadas e cócegas. Ele gostava de cutucar a minha barriga e dizer que eu estava gordo, que o trato estava bom. Aprendi expressões como “lereia” e “tiguaça” que certamente alguns entenderão e que até os dias atuais me fazem refletir que não precisamos levar as coisas tão à sério especialmente quando não exigem seriedade. Foi um outro pai que tive nesse mundo e, tenho a certeza, que muitos foram os seus filhos e filhas em Caldas.
Muitas outras cenas e histórias tenho para contar que,
talvez, possa relatar no futuro. As frases que deixo aqui são uma pequena
homenagem ao ser humano que passou pela terra e que, com muito mais acertos do
que enganos, deixou saudades. Seus retratos ajudam a amenizar tamanha ausência.

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Querido Padre Pogetto,saudade de sua presença amiga!
ResponderExcluirRealmente, muita saudade!
ExcluirA escrita tão viva e delicada que consegui caminhar por cada passagem da história. Em poucas linhas, criou-se uma presença, um afeto, uma saudade que também passou a ser minha. É bonito quando um texto consegue eternizar alguém assim influenciando vidas, inclusive a
ResponderExcluirde quem lê.