A ignorância e o pensar
Por Marcos Almeida
Quem nunca se deparou sofrendo com
alguém lhe dizendo o que deve fazer ou até impondo um prazo? Podemos comparar
com vivências da infância, quando nossos pais diziam: “vai dormir” ou “tá na
hora de levantar, senão vai perder a aula”. Ou ainda, "fica ali pra ver o passarinho", referindo-se à uma máquina fotográfica nas mãos do retratista. Crescemos (?) e, agora, as ordens vêm
de outros “genitores”. Antes gostávamos
de questionar ou choramingar e clamávamos por liberdade; hoje em dia, seguimos
o fluxo, reverberando no leito da comodidade implorando: “só mais dez
minutinhos” ou "vou ver a água escorrer da torneira".
Relendo o capítulo 15 do livro “21 lições para o século 21”, do autor israelense Yuval Noah Harari, cujo título é “IGNORÂNCIA, você sabe menos do que pensa que sabe”, poderíamos cair no marasmo, abandonando hábitos de aprendizagem, como a leitura. Se sei menos quanto mais procuro, melhor dessaber? Esta sensação, cada vez mais multíplice, nos induzindo a ficar, cada vez mais, afastados e marginalizados das coisas e emoções que realmente nos afetam.
Para quem não se dá por vencido facilmente, o jeito é buscar. E, aí, vem a surpresa: a palavra buscar tem a sua origem obscura. Opções? Raízes no latim clássico poscere (pedir, exigir) ou influências do frâncico (língua germânica dos francos, falada na Gália) busq (que originou "bosque"). Brincando um pouco com tamanha confusão, pedir e exigir, não dá para colocar na mesma caixinha, ao menos, no contexto desta reflexão. Exemplos de inícios de frase: “Meu amor, vim pedir...”, ou, a alternativa “meu amor, vim exigir...”. Qual a reação desse amor? Sumir pelo bosque? Entretanto, nesse detalhe, provavelmente seja o início da superação da mais sutil ignorância.

O menino da torneira
(Toda vez que eu viajava pela estrada de Pocinhos...)
Quanto a ignorância, vale refletir
sobre alguns dos seus mais famosos sinônimos: desconhecimento, grosseria,
incivilidade, rudeza. Se fosse um placar esportivo, poderia ser 1x3. Ou seja,
de um lado a palavra desconhecimento e as outras, grosseria + incivilidade +
rudeza, pontuando para o outro time. Não se pode ignorar esse jogo. Ouvindo
alguém cutucar o outro como ignorante, dependendo da história de vida de cada
um ou até da entonação de voz, o rebu fica armado.
Então, nos deparamos com o DESconhecimento: destacando o prefixo “des”, presente na formação das palavras em português como uma ação contrária ou como forma de negação. Estamos DESqualificados, DESpreparados, DESorientados, diante de tantos temas que afloram a cada instante em uma mistura mortal de informação e DESinformação.
Portanto, diante de tamanha complexidade, fica muito mais cômodo pensar a partir do relato que o seu/meu grupo impõe. “Humanos raramente pensam por si mesmos”, é o que afirma Harari, apresentando o indivíduo que sabe cada vez menos, mas capaz de apresentar suas opiniões de forma contundente, especialmente com respaldo do clã do qual faz parte. “Pensamos que sabemos muito, mesmo quando individualmente sabemos muito pouco, porque tratamos o conhecimento dos outros como se fosse nosso.” E isso, subjugado pelas redes sociais, fica ainda mais explícito e até mesmo atrativo.
Diferente de quem pesquisa em diversas fontes, buscando (exigindo aqui fica melhor) uma infinidade de pensamentos e adentrando por um bosque (que se revela aos poucos) visando ampliar o seu raciocínio, quem cegamente arrota o obscurantismo, cava com suas unhas um buraco profundo. Melhor então, elaborar novas ideias internas, provocando esforço mental, em um constante escrever e reescrever, dizer e desdizer, sonhar e acordar na dura realidade que nada cai do céu. Saber que, o que agora parece ser o mais certo, no futuro poderá se exaurir. Mas, este deveria ser o processo. Ou não?
Maior risco, então, cair na
ignorância do senso comum: “grosseria + incivilidade + rudeza”? Sem paciência
para ouvirmos argumentos (não se trata das opiniões, porque disso todos estamos
de saco cheio), ou ficamos em silêncio, ou anunciamos o apocalipse. Aquela
pausa da respiração para ouvir melhor, escuta ativa, fica prejudicada pela
minha/sua réplica pronta antes mesmo de auscultar o raciocínio alheio.
Quem nunca questionou (pelo menos em seu íntimo acovardado) algo que ouviu como verdade absoluta, nunca filosofou. Pensar como todos os outros acaba nos incluindo em algum círculo, mas também nos arrasta para uma (in)existência sem sentido, sem a capacidade de se reescrever. Tantas vezes, nos encontramos sob a arbitrariedade de um pensamento dominante deixando-nos incapazes de nos movimentarmos para observar as coisas de um outro ponto.
Francesc Torralba, filósofo e teólogo espanhol, que em seu livro “O valor de ter valores”, sabiamente aclara que “quando pensamos, porém, paralisamos a vida e detemos o fluxo vital, porque pensar nos obriga a parar.” Não sei o quanto temos feito dessa forma. E nesse mundo moderno, quem deseja nos influenciar, preparando vídeos e textos para nos conter? Acaso, realizou essa parada pensando além do seu umbigo? Teria realmente refletido no impacto para os seus seguidores? Ou seus liderados? Alguns imaginam-se palhaços (que tanto admiro) buscando risadas depreciativas e preconceituosas, inclusive em púlpitos, donde o respeito e a tolerância deveria ser a premissa.
Torralba continua: “O objetivo do pensamento é a profundidade, é entender o que são as coisas em sua essência, o que implica ir além das primeiras impressões, da aparência, daquilo que captamos num primeiro momento, e perguntar-se sobre o que não se vê a olho nu, sobre a essência, a causa do fenômeno.” E ainda nos alerta para fugir do consumo de pensamentos mastigados e fragmentados, como as manchetes dos jornais, sites e mídias sociais que nos empurram goela abaixo.
Se buscarmos reduzir nossa ignorância, na acepção do DESconhecimento, precisamos retornar, ou seja, dar alguns passos atrás. Quem sabe, parar um pouco no ponto de partida de onde caberia a nossa ponderação, antes do caminho a perfazer. Daí, talvez, consigamos entender que grosseria, incivilidade e rudeza, com sinceridade, englobam a tremenda estupidez por onde muitas pessoas (talvez eu e você) insistem em cursar. E, por fim, dependuramos um diploma de inepto na parede da nossa insana consciência imaginando que ninguém mais terá a capacidade de nos reconhecer como tal. Tudo isso, para o nosso bem!
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