O casório
Por Marcos Almeida
O dia clareou como tantos outros, mas algo
especial fez com que uma jovem e um homem mais experiente despertassem com um
entusiasmo fora do comum. Ao abrir a janela do seu quarto, aquela moça que
tanto sonhou com a data a ser eternizada em sua memória, teve a certeza de que
todo o azul do céu parecia aprovar o enlace previsto para o fim do dia,
enquanto seu escolhido se animava por encontrar alguém especial para conviver
vida afora, amenizando a saudade que o envolvia por estar distante das suas
raízes.
Na Matriz de Nossa Senhora do Patrocínio, muita
gente aguardava a noiva acompanhada do seu pai. Lado a lado, pai e filha, atrás
da porta de acesso ao corredor central que leva até o altar. Um homem de trinta
e dois anos esperava irrequieto, sorridente e transpirando em seu terno escuro,
antes da mesa da comunhão, uma separação em pedra mármore, que, após transpassada,
os noivos se apresentariam diante do presidente da celebração do Sacramento do
Matrimônio, Padre Gervásio Cunha. Aquela jovem de branco, até aquele momento,
teria que percorrer por mais alguns dias para completar os seus dezoito anos,
no dia 21 de junho. Contudo, maio, considerado o mês de Maria Mãe de Jesus, dos
homens e das noivas, tornou-se, para esse casal sonhador, o momento perfeito
para as suas bodas, planejadas em tão pouco tempo. A família e vários amigos se
desdobraram para que tudo acontecesse de uma forma que a comunidade
testemunhasse o enlace matrimonial muito comentado. Nada escapava aos olhares
dos convidados e de curiosos pelas ruas, quando a Ivete da Silva desceu do
automóvel contratado para conduzi-la de casa até ao templo, com seu véu e
grinalda destacando seus encantos, pronta para valer-se da experiência única de
receber as bênçãos de Deus, um pacto até que a morte fosse o ponto da
separação.
Poucos dias antes, ao marcarem a data da aliança
para o dia 8 de maio, não faltando quem espalhasse um “talvez” de gravidez não
planejada, dando a entender que o casório fosse adiantado para esconder uma
criança que estava por sobressair na barriga da donzela. A sociedade, marcada
pelo tradicionalismo, insistia que uma mulher não poderia ser “mãe solteira”,
forma pejorativa comumente usada, que ainda perdura diante da influência de
ensinamentos religiosos fundamentalistas. A verdade? Era apenas boato. Tal
situação acarretou certa tristeza e, paralelamente, a altivez por parte daquela
jovem mulher que estava entregando todo o seu futuro para um rapaz nascido em
uma cidade distante fazendo tudo de acordo com a sua consciência. Mas, o mais
importante estava por acontecer.
A igreja estava tomada de pessoas de Caldas e
Pocinhos, além de convidados e parentes vindos de outras cidades. A cerimônia
foi marcante. Havia religiosidade e alegria. O compromisso selado com palavras
e com a troca de alianças deixou as duas famílias em êxtase. Olhares repletos
de cumplicidade e afeto. Sabina, mãe do noivo José Eduardo de Almeida, estava
ao seu lado para viver junto esse momento marcante; José Cândido e Maria
Aparecida, que confirmavam o genro como filho, não deixaram faltar nada para
que a comemoração fosse marcante e aprazível.
As poucas fotografias da união conjugal religiosa
registraram instantes que, mesmo na simplicidade, transfiguraram um amor
envolvente, especialmente para os que amparavam com carinho e afeição aos
recém-casados. A revelação das imagens em preto e branco, providenciada pelo
próprio retratista após alguns longos dias de curiosidade, em papel de
excelente qualidade. Cada retrato, envolto em capas individuais e
personalizadas, com a frase “Lembrança de
Nosso Casamento”, protegido por papel translúcido, traduziu em imagens
momentos de felicidade. A emoção parecia não ter fim; tempos em que os retratos
serviram como entretenimento palpável para as primeiras visitas recebidas,
inicialmente, na casa dos pais da noiva. Foram sete registros que
possibilitavam observar a chegada da noiva descendo de um automóvel dando a mão
para o seu pai; a entrada com o pai e a daminha Arlete carregando as alianças;
os nubentes assentados no banco do templo com os padrinhos ao fundo; o momento
da troca das alianças diante do presidente da celebração; a saída de José e
Ivete sorridentes pelo corredor central; os recém-casados entrando no carro que
os levariam para a comemoração em família; e, por fim, marido e mulher cortando
o bolo ao lado dos genitores José Cândido, Maria Aparecida e Sabina.
A lua de mel foi em Belo Horizonte, onde os
noivos ocuparam a sala de visitas da casa do irmão de José, Wander Eduardo e
sua esposa, que tinham filhos pequenos. Como era costume da recém-casada,
quando acordava, espreguiçava-se em pé sobre a cama. Porém, na casa do cunhado,
tamanho o esquecimento quanto ao sofá-cama, cedido para a noite mais esperada,
caprichosamente inclinou-se com o peso do marido, desequilibrando os dois e
causando o maior barulho. Toda a família foi acordada com esse susto. Tal fato
propiciou um clima de alegria e descontração, pois o costume da família Almeida
era não perder uma piada como esta.
Tais ocasiões marcantes podem apenas resumir um
começo, mas na verdade são conexões entre antes e depois de muitos fatos que
embasaram a história de filhos e netos. Lembranças mantidas nos corações e
mentes e que, agora, desejam viajar sem estabelecer fronteiras entre tantas
outras percepções que foram cultivadas pelo caminho, como um semeador que
lançou as sementes atento ao solo profundo, aerado e nutrido, favorecendo o
enraizamento para o desenvolvimento de uma planta geradora de flores e frutos!
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EM BREVE, ESTAREI LANÇANDO O LIVRO, AINDA SEM TÍTULO, SOBRE ALGUMAS BELAS RECORDAÇÕES DE MEUS PAIS, IVETE E JOSÉ!
COMENTE ABAIXO SE GOSTOU DESSE PEQUENO TRECHO QUE ESTARÁ NO LIVRO E O QUE FAZ VOCÊ LEMBRAR DO ZÉ DO CORREIO E DA DONA IVETE!
Gostei muito da narração
ResponderExcluirParabéns
Amei. Lembro muito pouco do casamento.
ResponderExcluirÉ envolvente, parece que nos transporta para a história. Gostei
ResponderExcluirUm momento sublime que deu início à nossa história. Bela narrativa, envolvente e singela!
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