Por entre beliches, caronas, foiçadas e abacates - Parte I

Por Marcos Almeida

Parte I

Cutucar o passado pode ser algo provocativo. Pensar assim, me faz ter cuidado com os meus rabiscos e luto para não condenar os olhares apenas curiosos – no bom sentido do termo – levando em consideração que as experiências que compartilho são pessoais, pelo menos aqui neste caso, sendo possível provocar sentimentos adversos. Mas, talvez, seja apenas uma preocupação ou dúvida desnecessária. Sempre é muito difícil tratar de alguma vivência tentando convergir para o ponto de vista de alguém que não passou pela mesma situação, e que necessita, por vezes, aprofundar no texto para captar o significado da mensagem. Acredito que há uma grande responsabilidade: o emissor deve reconhecer esse desafio. E certamente, o receptor necessita atentar e buscar nas entrelinhas os inúmeros códigos e senhas. Sim, exige esforço. Estar aberto, portanto, a algo que não havia explorado ou embrenhado, pode fazer a diferença para uma conexão desejada. Escrever parece ser mais fácil. Dá pra retroceder, apagar e reescrever. Mesmo assim, cada qual com o seu papel, assumindo com intencionalidade, faz a comunicação complexa tornar-se palatável para os envolvidos. Outrossim, não imutável. Ao reler, a tendência é interpretar um tanto além. Ao historiar, portanto, jamais deixo de reler antes de publicar. A falha humana até poderá coexistir com a redação, mas com o zelo, a tendência é de fluidez.

Dito isso, alguém me provocou dias atrás se eu tinha um determinado tipo de retrato, que mais adiante prometo detalhar um pouco mais. Fiquei pensando que uma imagem, criada pela maravilhosa cabeça humana – ou não – pode fazer alguém pensar em situações semelhantes que geraram significados, por vezes, até de forma divergente ou diferente.

O dia da identidade

Acabei, então, voltando aos meus treze anos de idade, quando providenciei a minha carteira de identidade. Era necessária para participar de um processo seletivo na Escola Agrotécnica Federal de Muzambinho/MG. Tomamos o ônibus, em Caldas, eu e minha mãe, rumo a Delegacia Regional de Poços de Caldas, que ficava próxima a igreja São Judas Tadeu. Colheram minhas digitais e fiquei pensando na responsabilidade de homem que estava começando a recair em meus ombros, ainda sem tanto peso. Antes de retornarmos pra casa, fomos ao centro da cidade, Rua Assis, tomamos alguma vitamina – daquelas que misturavam abacate com soda limonada – e esperamos a condução na Rua Francisco Sales. Deu tudo certo. Dias depois, consegui retirar minha identificação oficial, passar no “Vestibulinho” e junto com mais três amigos (Bebeto, Betinho e Zé Maria) conterrâneos, pagamos o Tio Quinzito para nos levar até à escola, no seu Fiat 147 vermelho, para fazermos a matrícula. Enfim, sair de casa para estudar. Guardem essa idade: 13 anos.

José (pai), Renata (irmã), Marcos (eu) e
Ivete (mãe)

Por isso, não esperem que eu conte tudo. Mas, o que entendo ser relevante para o raciocínio que procuro desenvolver, contando um pouco da minha vida de adolescente com expectativas para um futuro em um país ainda governado por militares, no caso, João Batista de Oliveira Figueiredo, o último da ditadura. E acredito também que muitos se perceberão, em certa medida, com trajetória parecida, mesmo estudando – ou não podendo estudar pelas dificuldades da vida – em outras escolas e cidades. Aqui, o trecho entre Caldas e Muzambinho, será o ambiente dessa prosa.

O primeiro dia para viver naquela escola foi algo inédito na minha vida e de muitos que começavam comigo (ou que passaram por lá antes e depois). Era fim de fevereiro ou começo de março, de 1980. A cidade era chamada por alguns de Muzambinho City. Tinha a Rádio Rural, com “um quilo de potência no ar”, como diziam os locutores. E pra mim não era novidade a cidade em si, pois havia residido lá com meus pais por quase seis meses em 1975, tendo estudado na Escola Frei Florentino. Entretanto, adentrar em um alojamento para cerca de cem alunos, com inúmeras beliches, era algo impensado alguns meses antes.

Minha mãe, lembro bem disso, rezava dia e noite quando eu disse que iria estudar fora. Foi logo após as férias de julho, quando ainda cursava o último ano do ensino fundamental, a antiga oitava série, na Escola Estadual Vicente Landi Júnior. Meu pai parecia “não esquentar a moringa”. Buscava acalmar a dona Ivete que, enfim, concordou que eu teria que enfrentar as dificuldades por conta própria. Ela só me emparedou uma vez na vida. E foi nessa ocasião quando me disse:

- Se você quer tanto ir estudar fora, tudo bem. Mas você vai lá e não vai desistir. Só vai voltar depois de formado. Se desistir, não volta pra casa!”

- Caramba, mãe!

- É tudo ou nada!

Finalizou a conversa aquela mãe aflita, que muito mais tarde me confessou ter falado tudo isso com o coração apertado.

Então, chegando naquele local, onde o banheiro era enorme, com inúmeras fossas (não havia privadas nem assentos almofadados para acomodar as nádegas dos alunos), nada privativo na hora de tomar banho, similar a um quartel do exército. Nós, os amigos biscoiteiros, corremos juntos para conseguirmos uns beliches onde ficássemos próximos. Acabou dando certo. Cada um estendeu o seu lençol e deixou os cobertores dobrados. Todo o enxoval do agricolino era de responsabilidade das famílias adquirirem antes do início do ano letivo. Nem sei como meu pai conseguiu pagar tudo aquilo, pois estava aposentado, ajudava a sua mãe idosa e viúva se manter em Piumhi e morávamos pagando aluguel. Pelo menos, a alimentação era garantida pela instituição, além do excelente nível de professores e de estrutura para a prática do esporte.

Após a aula

Depois, com um cadeado em mãos, cada um escolhia a sua porta de um imenso armário para guardar as poucas roupas e objetos. Uma cordinha (ou mesmo um barbante) em forma de colar prendia a chave, mantendo-a no pescoço, na cabeceira do leito ou para ficar rodando 360º adiante dos olhos ou dos pensamentos soltos. Um “toquinho” com o número do aluno – o meu era o 15 (naquela época rezávamos para não termos o azar de ser o 24) - servia para controle das refeições. Era levado de um enorme quadro, repleto de pregos enumerados, para o outro do mesmo tamanho quando o aluno se fazia presente no refeitório. Havia uma escala para ajudar no refeitório, outra para a limpeza das salas de aula e dos dormitórios, dos banheiros, etc. Aprendi a colocar as mãos nas vassouras e nos rodos, torcer pano de chão, encerar tacos e limpar latrinas. Cada um lavava as suas cuecas e meias, podendo mandar para a lavanderia somente peças maiores, todas numeradas com o mesmo número do “toquinho”. Coisas simples e que foram a forma de coexistirmos naquele ambiente, valorizando o que cada um deixou em sua casa. Quem antes dependia de tudo da mãe e do pai, como eu, passou a dar mais valor neles e em tudo que vinha da família.


Continua...

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