Por entre beliches, caronas, foiçadas e abacates - Parte II

Por Marcos Almeida

Parte II


Leia a PARTE I desta história, link abaixo:

PARTE I - CLIQUE AQUI


Confesso que a primeira semana, em um colégio considerado como semi-internato, foi difícil pra mim. Chorei. Dava um jeito de me esconder, nos meus iniciados quatorze anos. E também engoli o choro. Nem sei se isso fez bem ou mal para o meu psicológico. Mas eu ouvia a voz da minha mãe dizer que deveria aguentar firme. Tinha pavor de envergonhá-la diante de algumas amigas que incitavam a sua imaginação, que eu não aguentaria o tranco e a escola era para quem estivesse acostumado a trabalhar na roça. E, talvez, por força das línguas, realmente aconteceu o esperado trabalho duro. Logo de cara pegamos um enorme terreno para capinar. Após as férias, o mato havia tomado conta de onde seria a horta. E lá fomos nós. Uma turma de trinta, pois as outras turmas estavam em outras áreas. Recebi a minha enxada, agarrei no guatambu e saí mais cavoucando do que capinando. Eu, saí com a mão sangrando, de tão fina que era a minha pele, sem costume de serviço tão pesado. O cabo da enxada só não era maior que a gente porque estávamos na idade do esticão. Mas era pesada a ferramenta para quem até pouco tempo apenas soltava pipa e jogava futebol. Algum colega mais acostumado com a lida acabou me ajudando, fazendo mais do que a parte dele. Aprendi aí a lição da solidariedade e de que nem tudo é meritocracia. Como eu poderia retribuir? Pensei em compartilhar o meu conhecimento com aqueles bons de capina. Ajudei-os com os exercícios de matemática e, principalmente, de português quando precisaram. Fazia isso com alegria. Com o tempo, até o mais franzino menino conseguia se acostumar com a lida na escola que também era uma fazenda. Aprendemos a lidar com o gado, com porcos e frangos. Garantíamos a nossa salada com o que ajudávamos a produzir na grande horta. Tomei gosto por tudo aquilo, porque a natureza é sábia e excelente mestra.

Escola Agrotécnica Federal de Muzambinho
Após geada 1982

Ter dinheiro era raridade naqueles tempos. Estudante, pagava com a fama de duro. Ir para a cidade, liberada apenas a cada quinta-feira ou fins de semana; ou para casa, saindo no sábado e voltando no domingo, normalmente de busão ou na base da carona. Como eu gostava de estar em Caldas, ainda mais sendo um estudante da EAFM, poder exibir o uniforme e uma bela jaqueta azul, que usava até com sol rachando mamona, aprendi com outros colegas a “esticar do dedo” nos trevos da vida. Terminando a aula mais demorada da semana (sábado), almoçava rapidinho, catava a mochila jeans, seguia uns dois quilômetros em estrada de terra até a rotatória de acesso, para contar com a sorte e a caridade dos motoristas. Se não fosse possível, o ônibus estava por vir. Era a linha da Santa Cruz, de Muzambinho até Poços de Caldas. Sem chuva, o costume era ficar por perto do Restaurante Carretão (próximo à Polícia Rodoviária) e, quem sabe, o Dr. Lázaro, médico famoso da cidade, passaria por lá voltando da sua costumeira visita à cidade sulfurosa. Certa vez, com seu Monza novinho, gastou quase uma hora do carretão até a sua casa, na Praça Paulino Figueiredo.

- Obrigado, Doutor!

- De nada, Almeida! Dizia ele, após longos papos sobre os meus antepassados, porque conhecia cada família até o “carcanhá da vó”.

Vista de Muzambinho/MG ao fundo

Mas, enfrentei alguns perrengues nestas caronas: motoristas alcoolizados; pneus furados sem o estepe; viagens em carrocerias de caminhão com chuva no lombo. Às vezes parava um carro bonito, após o sinal característico, e quando dizia que seria até a cidade de Cabo Verde dava vontade de chorar. Mas a fome impedia o raciocínio. Parando no trevo da “cidade jamais amadureceu” (uma piada nossa), rezávamos para que a jardineira não viesse lotada. O fato era que o trevo da cidade cafeeira ficava em uma grande reta e em declive, rumo ao nosso destino, sem redutor algum. Quem descia ali, soltava na banguela e a preguiça era enorme para brecar o veículo e acudir alguns rapazotes que sinalizavam com seus dedões ou plaquinhas. Não é como atualmente, com tantos carros circulando. Anos 1980, pouca gente circulava, especialmente após o almoço do sábado. Em uma ocasião saí da escola as 11h30 e cheguei em casa somente às 19h. Minha mãe pulava de raiva, porque não sabia do paradeiro e nem telefone fixo tínhamos. Olhei para a penteadeira do quarto dos meus pais e haviam mais de vinte velas acessas com vários santinhos para interceder.

Carona - Trevo de Cabo Verde/MG

Um fim de semana tão curto e intenso. Revia meus pais, minha irmã; saia pra encontrar amigos, uma paquera, jogar papo fora em algum banco da praça; ia até a sorveteria do Sr. João Lemes e pedia um picolé de vinho ou de abacate (em outra vida devo ter sido sabiá); passava no bar São João para ver o movimento; subia na quadra do Palácio da Uva na expectativa de algum pessoal precisando de um jogador; arranjava algum parceiro para ir a pé ou de “dedão” (carona) até a cascata Antônio Monteiro, Bacião ou Areião; visitava meus avós Zé Cândido e dona Cida, comia um doce de laranja e ouvia suas histórias; vez ou outra, passava na igreja ou participava da missa de sábado – ou de parte – pra rezar um pouco; depois, via o movimento da praça e do bar Degrau, com suas dancinhas sincronizadas aos embalos de Bee Gees, Rita Lee ou Alceu Valença; de vez em quando, um baile no Copas, promovido pela Aiê Produções, do saudoso Carlos Magno D’Ambrósio, tendo conseguido contratar ótimos conjuntos (bandas) como Banda do Brejo, Placa Luminosa, além de shows como 14 Bis e outros mais, especialmente na famosa Festa da Uva; antes de dormir, ligava o radinho na Libertas FM para ouvir canções da MPB; almoço de domingo, maionese com legumes e carne de porco de panela, limonada doce e mais doce de cidra, com a vitrola tocando Milionário e Zé Rico, Trio Parada Dura e Perla, um gosto peculiar da família reunida. Foi o meu tempo entre 14 e 16 anos, quando terminei o ensino médio. Domingo, 16 horas, tomava o ônibus em frente ao Cine Caldas, depressivamente. Mesmo sabendo que eu precisava estudar, queria ficar e curtir a adolescência. E seguia até o trevo do carretão para esperar a carona da volta, que normalmente dava certo.

Continua...

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