Multiplicidades de incômodos
Por Marcos Almeida
Uma bola de capotão, enfim, fora apresentada para ser
disputada no campinho da escola. Parecia que a peleja seria mais séria. Pocinhos não era o fim do mundo nem para quem nunca colocou os pés por lá.
Para quem viveu pelas beiradas do Rio Verde, era lugar de primeiro mundo. Certamente a bicuda na aposentada
bola de borracha parecia carinho para as unhas dos pés. Porém, o couro, esse
sim era bruto. Evolução. Bola de “capetão”, criticavam alguns. O povo do
exército estava acostumado. Os atletas começaram a calçar congas para não
perderem as respectivas tampas dos dedões. E um certo moleque sonhou com o
primeiro gol. Mas a partida primeira não saiu do zero.
Antes de voltar para a sala de aula, a pose para um retrato estudantil
com o Pavilhão Nacional ao fundo. Depois, virou um binóculo esquecido no fundo de uma gaveta. E o que
mais incomodava o estudante era entender, em uma sequência numérica, qual seria o primeiro:
o “um” ou o seu teórico antecessor “zero”? No placar o “zero”; se campeão, o
que fica por último torna-se o “um”. Fato. O jogador mais talentoso por
competência ou idolatria lutava para ter os dois números, um ao lado do outro,
formando o "dez" do uniforme. “É o camisa dez da seleção”, ouvia-se nos anos 1970
em uma famosa música chiclete cantada por Luiz Américo (masculino de América). Ele
também cantava outras músicas conhecidas, com títulos emblemáticos: “O gás acabou”, “Fio da Véia”, “Carta de
Alforria” e “Cuca cheia de cachaça”. Havia alguma simbiose nessa coletânea musical.
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| 1973 - Futebolista ou estudante? |
E há algum problema nisso tudo? Talvez. O incômodo continua sendo a cor do uniforme. Alguns tentaram sequestrar o amarelo canarinho. A torcida se dividiu entre o lateral direito que falhou e o atacante que marcou contra a seleção do sol nascente. Tudo na mesma partida. Qual o número deste e daquele, só pra gerar conteúdo?
Entretanto, o incomodado do próximo jogo foi o time inteiro,
perdido entre o passado glorioso e o futuro incerto. O pênalti não foi
convertido assim como a ovelha negra da família continuou sem religião. O adversário, um loiro diabo
que não vestia prada e nem usava salto alto. Não se esparramou pelo chão. O
nosso camisa dez entrou para salvar a pátria, mas acabou chorando pela quarta
vez. Seria a oportunidade de repensar a aposta? Bet Balanço, meu amor, Cazuza inspirou muita gente.
Voltando à infância, quem não se lembra do par ou ímpar (para
escolher cada jogador do time) e do placar em “cinco vira e dez acaba”. Um jogo para durar dez minutos ou até a eternidade!
Agora, a tela da transmissão deixa o relógio mostrando o tempo o tempo todo; o
narrador nem vê a bola do jogo; e, o juiz precisa conferir a TV antes de qualquer
decisão. Faltou o sofá e a pipoca. Já descartou o apito no lixo reciclável? E se houver um presidente
disposto a cancelar um “red card”, dá pra negociar? Em troca de um "green card"? Impossível.
Só a soma de todos os incômodos em possíveis
multiplicidades, do zero ao infinito, perpetuará a ignorância diante da
necessidade em complicar o que é simples e gostoso de vi-ver. Jamais
serão como nos campinhos das escolas que estão todos escondidos sob os
concretos frios e repletos de fissuras.

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