O Canhoteiro - CRÔNICA

Por Marcos Almeida

Delei parece ter nascido do avesso. Ou atravessado, dando trabalho para a parteira bem no meio da década de 1960. Talvez, os pais ouviam aqueles rapazes ingleses, encantadores de massas cantantes e delirantes, pelos palcos de um mundo em plena transformação. O lépido menino veio ao planeta não pra dar uma volta, mas para marcar presença. Assim pensou sua mãe, nascida na roça, estava acostumada a ordenhar vacas de cócoras e jamais perdeu a sua fama de mais rápida ordenhadeira da família. Ela, porém, insistia em destinar a sua tarefa no mesmo latão de todos. Só muito tempo depois, as máquinas privadas conseguiram realizar o trabalho de sugar o leite das tetas bovinas com mais agilidade.

Porém, o que importava para ela, após o nascimento de Delei, era apenas o Delei. Por semanas, o rapazinho traquina era apenas um desajeitado. Tentaram de tudo para ele se enquadrar. Primeiro, forçaram-no a levar a comida do prato à boca com o seu lado “bobo”, como ele mesmo dizia. Escrever, nem com reza brava dava conta de sair um garrancho com a mão destra. Chutar a bola de meia feita com esmero pelo seu pai, também era só com a perna errada. A direita, tanto do pé, quanto da mão, ficava só de enfeite.

Verdade seja dita: sabia fazer carinho com as duas mãos, caminhar e buscar pães com as duas pernas, rezar como um santinho com os dois joelhinhos dobrados diante do altar. E foi lá, na igrejinha de São Longuinho, que Delei pediu a ajuda do seu santo protetor. Queria encontrar um jeito de usar os dois lados do corpo. As más línguas diziam não ser de Deus um canhoteiro. Podia ser coisa do coisa ruim. Ele se preocupava, mas não perdia a fé.

Seu pai, certa vez, ouviu a reza do filho amado. Contou para a esposa. A mãe ficou aflita. Delei sabia ser garoto bom, gostava de passarinhos e de todos os animais. Tinha um cãozinho chamado Doutor. O bichinho era todo branquinho, tinha uma mancha em volta de um dos olhos, e quando via uma galinha doente, usava o seu focinho para levantá-la. Delei e Doutor eram inseparáveis. E o cão também usava mais o seu lado esquerdo. Sinistro.

Essa foi a Doutora

O tempo voou. Delei virou homem. Doutor morreu de morte morrida. Os pais daquele menino estavam bem velhinhos. Não viam mais aquele filho. Todos acreditavam que tudo mudou após o “delay” de quem cresce um pouco na vida. Aí, o lado oposto do canhoteiro passou a ser dominante. Aprendeu com a direita e esqueceu toda a sua natureza. Levantou bandeiras e disparou suas armas, sempre com a mão certa. Agora, a sua vida estava ajustada.

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