Não custa sonhar! (Crônica)
Por Marcos Almeida
Semana passada cheguei em Pocinhos. Na verdade, o pequeno lugarejo chama-se Pocinhos do Rio Verde. Não me envergonho de buscar tratamento para a amebíase, pois em São Paulo não logrei êxito no combate ao protozoário parasita causador desse meu martírio. Quanto aos sintomas mais amenos, os ridicularizados gases e a fadiga deprimente; o pior é enfrentar as diarreias e a cólica de retorcer o corpo. Um senhor coronel da reserva conhecido do meu pai, residente em Caldas, cidade do Sul de Minas, apresentou-me a esperança da qual preciso. E também indicou o médico para prescrever minha terapêutica. Para obter sucesso, seria necessária uma estadia de quinze dias. Optei por hospedar-me no Hotel Rio Verde, na singela rua principal do distrito, diante da igrejinha dedicada à São Vicente Ferrer, um frade dominicano e teólogo espanhol, missionário. É tudo que consegui descobrir.
| Hotel Rio Verde - Pocinhos - Década 1970? |
Instalei-me em um quarto próximo à recepção com janela voltada para a rua. Quando não estou lendo, fico observando alguns cavaleiros passando sobre os animais de cores variadas. Ouvi algum deles dizer estar a caminho para uma tal pedra branca ou pedra grande. Não entendi bem. Mas o galope de um ou outro estremeceu a jarra com água disponibilizada pelo meu anfitrião. Solícito, como toda a gente dessa paragem, acabou cedendo um pequeno rádio para distrair-me após o sol se esconder, corriqueiro por volta das cinco horas da tarde. O frio noturno não é tão intenso quanto o matutino. As madrugadas são geladas e sinto a falta de Gema na minha cama. Manoel, Eurico e Otero, nossos filhos de 10, 9 e 8 anos, gostam de aninharem-se conosco para ouvirem histórias que inventamos a esmo.
Comecei a percorrer o vilarejo. Pertencente ao município de
Caldas, uma cidade promissora, dista apenas quatro ou cinco quilômetros. Fazer
uma caminhada leve até o balneário mormente é capaz de rejuvenescer-me. Por lá
encontrei as fontes das águas miraculosas. Espero que me ajudem na cura. Encontrei
pessoas sorridentes e simples. Um pequeno homem limpando a rua e outro cuidando
do gramado. Fiquei impressionado com os pinheiros. Escutei os estalos das
pinhas e um grupo de crianças catando os pinhões. Tudo bem próximo ao Rio Verde
e aos fontanários. As águas brotam da profundidade e percorrem as frestas de
rochas. Uma beleza!
Conheci um senhor morador da Rua d’Ambrósio e dono da Quinta
Néctar. Meu xará, Olegário. Mas todos o conhecem por Adolpho, seu segundo nome.
Ofereceu-me uma taça do seu vinho Niagara Licoroso. Recusei, naturalmente. Fiquei
com água na boca. Recordei-me, antes, do meu compromisso em zelar pela minha
saúde enquanto carecia muito mais das águas radioativas e sulfurosas. O famoso médico
e sanitarista Vital Brasil estudou essas dádivas da natureza. E já percebi que
muitos moradores conhecem bem, com base nos relatos de tantos enfermos que
superaram suas doenças, ao menos a diferença entre as três principais fontes:
Rio Verde, Samaritana e São José. As duas primeiras “moderadamente quentes”, em
torno de 25 a 26,6°; a última, específica para tratamento epidérmico.
| Almanaque 1960 |
Tenho sofrido um pouco com esse ócio. Acabei sonhando com os vinhos. Espero em uma próxima oportunidade fazer uma via sacra pelas quintas –, nesse lugar abençoado. Consegui listar algumas: Quinta Néctar, Vinhos Tambasco, Vinhos Estádio, Quinta Flôr de Caldas, Quinta de Caldas, Vinhos Montanhense (Vinícola Caldas). E em Caldas existe uma Estação de Enologia e Viticultura com construções belíssimas. O fluxo turístico é bem intenso por motivos certos e líquidos: os vinhos e as águas!
Ao visitar as fontes, olhei para um pequeno morro próximo. O
que encanta nele é possuir uma igrejinha. O Morro do Galo. Pensei em subir lá. Declinei
em um primeiro momento, não almejando um esforço desnecessário. Até que um cavalheiro
recém-chegado me ofereceu companhia. Estava morando no Hotel Pontes, onde a
entrada para a subida era bem próxima. Ascendemos por uma trilha pedregosa,
envolta pelo capim gordura. Chegamos ao topo. Vi ao fundo a Pedra Branca (mas
pelo jeito muito grande também). Majestosa. Adiante de nós, o balneário e o
Grande Hotel. Bela vista por todos os lados.
Lá de cima, curioso, questionei sobre tudo. O senhor era
forasteiro e pouco sabia. Porém, concordamos sobre a energia daquele cume. Após
comtemplarmos todos os cantos, enxergando as serras e as matas, descemos.
Nem concluí o meu tratamento e já me sinto bem. Não sofro
mais. Ajuizei estabelecer-me por aqui no futuro. Quem sabe no ano que vem,
quando meu mais novo terminar o grupo escolar. Quem sabe compro uma ximbica
para ser chofer de praça por essas bandas. O ponto poderia ser de fronte ao
Hotel Rio Verde. Não custa sonhar.
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